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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Plano de reabertura de Trump pode ser guia para Bolsonaro

Vera Magalhães

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um plano de reabertura gradual dos Estados Unidos após diferentes graus de isolamento social determinado por governadores nas diferentes regiões do País. Alguns governadores também já admitem a possibilidade de relaxar as regras de lockdown. Num sinal de que entendeu o nó da questão, no entanto, o presidente norte-americano, embora fale em três etapas para reabrir o país, deixa a decisão final na mão dos governadores.

Mas mesmo lá, a meca do capitalismo global, que testa muito mais que o Brasil para covid-19 e onde o auge da contaminação parece mais próximo que o nosso, o plano enfrenta questionamentos de especialistas em saúde.

Reportagem do The New York Times mostra que os Estados Unidos precisariam testar três vezes mais do que testam hoje antes de pensar em reabertura da economia. O estudo que embasa a reportagem foi feito por pesquisadores de Harvard. Os Estados Unidos realizam cerca de 146 mil testes/dia em média desde o início da epidemia. Já foram realizados mais de 3,6 milhões de testes em todo o País.

A ideia de Trump agrada aliados de Jair Bolsonaro. Ministros e parlamentares alinhados com o presidente afirmam que estabelecer alguns critérios para que diferentes Estados possam retomar as atividades, mas deixar a palavra final para os Estados pode ser um caminho para Bolsonaro tentar romper o isolamento em que se colocou nesta questão e deixar de aparecer para a opinião pública como alguém que minimiza a pandemia ou não se preocupa com a saúde das pessoas.

Os requisitos fixados por Trump são: abrir primeiro em locais de algo grau de testagem, em que haja comprovação de redução sustentada da curva de contágios e nos quais a capacidade de leitos e UTIs não esteja comprometida.

Mais um problema para Bolsonaro e demonstração de que não será simples para o Brasil, que está cerca de duas semanas atrás dos EUA em termos de contágio, falar em retomar as atividades: somos o País que menos testa, entre os 10 com mais casos de covid-19, não se tem curva decrescente de contágio comprovada (ainda mais por essa falta de testes), e o comprometimento de leitos é crescente em praticamente todos os Estados.

Ainda assim, mesmo que seja difícil replicar as condições dos EUA e o prazo para a reabertura brasileira seja mais longo, aliados do presidente avaliam que ter um plano é algo fundamental para ele, que está sendo cobrado por ter demitido Luiz Mandetta por razões pessoais e não técnicas. Isso seria dar alguma conformação de política de Estado ao discurso até aqui puramente emocional e sem base em dados ou ciência do presidente.