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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

‘Precisamos pensar em um nova forma de socialismo’, diz Piketty a Huck

Equipe BR Político

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O milionário apresentador de TV, Luciano Huck, entrevistou o economista francês Thomas Piketty para o Estadão. O autor do bem-sucedido livro O Capital no Século XXI defende a tese de que primeiro é preciso diminuir a desigualdade social para depois gerar riqueza, e não que é preciso fazer o bolo crescer para depois reparti-lo. Sobre isso, ele diz:

“Há um discurso conservador, especialmente no Brasil, em que as elites dizem que a redistribuição de renda só poderá ser feita no futuro, quando o País for mais rico, e que, se feita agora, será um desastre até mesmo para os pobres. O que eu quero dizer para os brasileiros é que, pelas evidências internacionais e pelas evidências históricas, o Brasil é hoje desigual demais para conseguir se desenvolver”, afirma Piketty.

Luciano Huck conversa com Thomas Piketty. Foto: Rafael Haddad

E já que o momento é de reavaliação do alcance do liberalismo econômico, viralizado nas redes pela entrevista do cantor Caetano Veloso para o jornalista Pedro Bial, Piketty dá sua contribuição ao debate recente trazido à tona pelo tropicalista com as críticas do autor italiano marxista Domenico Losurdo, à ideologia política difundida como representante dos direitos individuais aliados à democracia. Losurdo foca parte de seu trabalho na relação íntima do liberalismo com a escravidão, bem como aponta os males do colonialismo nesse processo para, então, apresentar uma releitura do comunismo. Num mesmo movimento, na entrevista a Huck no Estadão, Piketty advoga a favor de “uma nova forma de socialismo”, deixando claro que foi e ainda é “bastante anticomunista”. Veja o trecho:

“A tarefa da nossa geração, pelo menos para mim, na Europa, é perceber que nós fomos muito longe na direção do hipercapitalismo e tentar construir alternativas econômicas, alguma esperança em outro sistema econômico. O nosso sistema capitalista atual está danificando o planeta, criando muita desigualdade. Depois do desastre comunista do século 20, nós precisamos pensar em uma nova forma de socialismo, muito mais descentralizada, mais participativa, democrática, federal. Precisamos continuar pensando.

As pessoas da geração da Guerra Fria ou eram tentadas a ser comunistas ou eram muito anticomunistas — e elas ainda estão vivendo na Guerra Fria e não querem saber de alternativas econômicas. Penso que nós temos que reabrir a discussão. E penso que o crescimento das políticas identitárias é uma consequência de termos encerrado as discussões econômicas. Então, se você continuar dizendo para as pessoas que há apenas uma forma de política econômica e que os governos não podem fazer nada além de controlar suas fronteiras e suas identidades, não é de se surpreender que, 20 anos depois, as pessoas só falem do controle de fronteiras e de proteção de identidade. Nós precisamos retomar a discussão econômica. Precisamos refletir sobre os desastres do século 20 e partir para um novo século.”

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