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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Prefeito de BH sobre tragédia: ‘Deus deu o frio conforme o cobertor’

Alexandra Martins

Um dia após as chuvas atingirem pela primeira vez um bairro rico de Belo Horizonte desde o início das inundações, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), deu uma coletiva nesta quarta, 29, com nervos à flor da pele na tentativa de tranquilizar a população. Em pouco mais de 13 minutos, ele chorou e também levantou a voz. “Se Deus quis mandar a maior chuva de todos os tempos para este secretariado e este prefeito, ele deu o frio conforme o cobertor. Nós vamos fazer e sabemos fazer (a reconstrução), sem demagogia, sem gracinha”, afirmou no encontro.

Segundo ele, serão necessários, no mínimo, entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões do governo federal para consertar todos os estragos provocados pela chuva na capital. O governo federal autorizou hoje, no entanto, o repasse de somente R$ 7,699 milhões à gestão de Kalil. Já as perdas humanas, no Estado, são de 54 vidas, 13 delas na capital.

Em ato de braveza, Kalil esbravejou que o carnaval da capital mineira segue de pé. “O povo é obrigado a só sofrer? Não somos irresponsáveis. Vamos trazer 5 milhões de pessoas em segurança para esta cidade, esperando que até lá esta cidade esteja parcialmente recuperada ou então muito bem recuperada”, anunciou.

Outro momento de fúria veio ao criticar os “empresários gananciosos” que ficaram contra o atual Plano Diretor da cidade. “Eu quero deixar uma coisa muito clara, esse Plano Diretor que foi tão massacrado pelos empresários gananciosos dessa cidade, está aí a resposta para eles. Porque que ele é um plano diretor que cuida do meio ambiente, que eles não queriam, e a resposta chegou na casa deles, no bairro chique e luxuoso de Belo Horizonte”, vociferou.

Em que pese o fato de janeiro ter sido o mês mais chuvoso na cidade desde 1910, quando foi iniciada a série histórica, Deus, no entanto, deveria ficar de fora do amargo resultado. “Ressalta-se que o alto grau de impermeabilização das sub bacias e a massa hidráulica drenada para o canal do ribeirão Arrudas podem ser considerados fatores determinantes no seu transbordamento regular, onde as perdas materiais e humanas ocorrem de maneira frequente há cerca de nove décadas. Nesse sentido, pode-se concluir que o problema dos transbordamentos se deve pela insistência do ser humano em habitar áreas que não deveriam ser habitadas e modificadas, como as planícies de inundação”, conclui Alessandro Borsagli em sua dissertação de mestrado Do convívio a ruptura: a cartografia na análise histórico-fluvial de Belo Horizonte (1894/1977), defendida na Geografia da PUC-MG, em 2019.