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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Pressão dita reabertura em SP, que pode ser precipitada

Vera Magalhães

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A pressão de empresários, de políticos e da opinião pública, captada em pesquisas, ditou a decisão, anunciada nesta quarta-feira com a preocupação de que parecesse eminentemente técnica, pautada pela ciência e baseada em dados, de reabertura gradual de atividades econômicas no Estado de São Paulo, inclusive na capital, que registra a maioria dos casos de covid-19 no Estado — que, por sua vez, é o epicentro da pandemia no Brasil.

O governador João Doria em reunião virtual com prefeitos do Estado

O governador João Doria em reunião virtual com prefeitos do Estado Foto: Governo do Estado de São Paulo

Prefeitos do interior têm feito imensa carga sobre o governador João Doria Jr., o vice, Rodrigo Garcia, e a Secretaria de Desenvolvimento Regional, por reabertura de regiões nas quais não existe tanta demanda por leitos comuns e de UTI e não registram tantos casos.

Já era discutido há algumas semanas o plano de reabertura gradual de regiões do interior que atendessem a esses critérios. O inesperado, e arriscado, foi a inclusão da cidade de São Paulo e de algumas atividades bastante questionáveis, como os shopping centers, no plano de flexibilização da quarentena.

São Paulo será circundada por um cinturão de quarentena, representado pelas cidades da região metropolitana e da Baixada Santista. Qual o sentido de liberar a capital e não essas cidades? Sim, São Paulo conta com mais leitos comuns e de UTI, mas a ocupação não é muito diferente de algumas dessas cidades, e a circulação livre, inclusive no comércio da capital, pode atrair fluxo de moradores das cidades que ainda têm as atividades restritas.

A fiscalização do limite de 20% da capacidade para o funcionamento de lojas de ruas e de shoppings e escritórios é de viabilidade praticamente impossível.

Entidades que trabalham com monitoramento de dados da pandemia questionam os indicadores apresentados como balizadores da decisão de João Doria Jr. de reabrir aos poucos as atividades em São Paulo. A diretora-executiva da Open Knowledge Brasil, Fernanda Campagnucci, apontou um deles: não há padronização nos dados de leitos ocupados por parte dos municípios, enquanto o governo exige que haja ocupação não superior a 60%. São leitos exclusivos para covid-19 ou todos?

“Enquanto São Paulo ou qualquer outro estado não for totalmente transparente, não dá pra endossar um plano de retomada. Há problemas também nos outros indicadores, como a tal taxa de isolamento social”, escreveu ela, no Twitter.

O epidemiologista Átila Iamarino apontou uma contradição no próprio discurso de Doria e dos integrantes do governo ao justificar a reabertura — e que indica com clareza a pressão política e econômica pela flexibilização. “São Paulo passou meses anunciando que as pessoas precisavam ficar mais em casa, que sem recolhimento de 70% das pessoas faltaria leito (com razão). Nunca atingimos esse número. Duas semanas atrás tentaram até novo rodízio de carros. Agora tá tudo bem pra abrir? Que mágica aconteceu?”, perguntou ele no Twitter.

De fato, as taxas de isolamento, divulgadas diariamente pelo próprio governo, nunca passaram de 56% nas últimas semanas. Na semana passada, havia no gabinete de Doria e na prefeitura da capital discussão séria inclusive sobre a possibilidade de decretação de lockdown na Grande São Paulo, capital incluída. A reviravolta parece muito abrupta e injustificada, uma vez que os números de casos e mortes não começaram a cair.

O risco de uma reabertura prematura é que haja explosão de casos, internações e óbitos, o tão temido colapso do sistema de saúde ocorra e se tenha de retroceder na medida, com fechamento ainda mais severo. Nesse caso, os custos humanos, sociais, econômicos, psicológicos e também políticos serão muito maiores.

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