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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Problemas vão ‘além de questões raciais’, diz Bolsonaro

Vera Magalhães

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Jair Bolsonaro só se manifestou na noite de sexta-feira sobre o assassinato de João Alberto Silveira Freitas após ser espancado e asfixiado por seguranças de uma loja do Carrefour em Porto Alegre, na quinta-feira. O fez, como sempre, pelo Twitter. Num fio longo, o presidente descartou o componente de racismo no assassinato, louvou a “miscigenação” do povo brasileiro e disse que problemas do País são mais “complexos”, e vão “além de questões raciais”.

“O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado. Brancos, negros, pardos e índios compõem o corpo e o espírito de um povo rico e maravilhoso. Em uma única família brasileira podemos contemplar uma diversidade maior do que países inteiros”, começou escrevendo o presidente da República.

Para ele, o brasileiro sempre teve a “simpatia” do mundo pela sua diversidade, mas há quem queira dividir o povo, insuflando conflitos em nome de conceitos que ele coloca entre aspas, como “justiça social”.

Em uma série de sete tuítes, postada depois das 23h de sexta, ele segue dizendo que o Brasil tem problemas, mas não de cunho racial. “Estamos longe de ser perfeitos. Temos, sim, os nossos problemas, problemas esses muito mais complexos e que vão além de questões raciais. O grande mal do país continua sendo a corrução moral, política e econômica. Os que negam este fato ajudam a perpetuá-lo.”

Para o Bolsonaro cientista social e político, “não adianta” dividir o sofrimento brasileiro em grupos. Isso, diz ele, já enveredando para o terreno da teoria da conspiração, seria uma tática de grupos políticos, porque um povo dividido é vulnerável, e um país com povo vulnerável tem sua soberania (sempre ela) ameaçada.

“Não nos deixemos ser manipulados por grupos políticos. Como homem e como Presidente, sou daltônico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus. São nossas escolhas e valores que fazem a diferença”, termina o presidente, negando completamente a questão racial.

Não há, na sequência de Bolsonaro, o nome de João Alberto. Não há qualquer menção ao assassinato. Ele não chega nem a “lamentar o incidente” nem a se solidarizar com a família da vítima. Não há nenhuma cobrança por investigação rápida e justa dos fatos, nem a que se faça Justiça para os assassinos, o tipo de raciocínio que o presidente sempre é rápido em fazer.

Bolsonaro também não fez, nas suas redes sociais, qualquer menção ao Dia da Consciência Negra nem à luta dos negros por equidade e representatividade.