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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Quem ganha, quem perde, e quem vai para o ‘VAR’

Vera Magalhães

As eleições municipais deste ano têm vencedores e derrotados claros quando se analisa dois recortes: o das ideias e partidos consagrados e rejeitados nas urnas e também as figuras políticas que despontaram e naufragaram.

Há ainda o bloco de instituições e ideias e pessoas que dependerão do “VAR eleitoral”, representado pelo segundo turno, para que se possa analisar seu saldo (é diferente de alguns que ainda disputam o segundo turno, mas que colhem uma vitória inequívoca ainda que não vençam as disputas).

Minha lista de ganhadores e derrotados, nas duas categorias, ficou assim:

  1. Quem ganha

Partidos, movimentos e ideias

Política – Depois de ser estigmatizada na eleição de 2018, a política (nem nova, nem velha, apenas a política) foi resgatada nesta eleição. Partidos e alianças voltaram a ter relevância, posicionamento ideológico nítido e sem estridência foi reconhecido pelo eleitor e a exortação do diálogo, mesmo com diferentes, apareceu no discurso da maioria dos candidatos que venceram ou foram ao segundo turno nos grandes centros do País.

Experiência – Da mesma forma, mas sem ser a mesma coisa, candidatos que tinham um currículo de realizações no campo administrativo mereceram um voto de confiança do eleitor. Em alguns casos, como o de Eduardo Paes, no Rio, o resultado foi quase como um pedido de desculpas em relação ao que aconteceu em 2018, dada a rapidez com que Wilson Witzel, que o atropelou na disputa estadual, se desintegrou.

Representatividade e mandatos coletivos – Numa campanha marcada pela força da mensagem do voto em mulheres, negros e minorias e aumento da representatividade na política, os resultados foram muito eloquentes. A cidade de São Paulo elegeu duas pessoas trans, uma vereadora travesti, vários coletivos de candidatos e o maior número de pessoas negras da história. A eleição de mandatos coletivos, que já começou há dois anos, foi uma tônica deste ano, mostrando que é necessário que a lei eleitoral passe a contemplar essa realidade (hoje, o mandato pode ser coletivo, mas para efeitos práticos apenas um integrante é considerado parlamentar). O resultado e o ativismo intenso verificado ao longo da campanha tornarão difícil que prospere a articulação que já ganha corpo nos grandes partidos para reverter a cota de recursos e candidaturas para negros e mulheres.

Erika Hilton (PSOL), primeira mulher trans a ser eleita vereadora em SP. Foto: Reprodução/Facebook

PSD – O partido de Gilberto Kassab, surgido em 2011, sai das urnas como o terceiro em número de municípios governados no Brasil, atrás do MDB (que mantém a liderança, mas com grande queda em relação a 2016). Está nessa lista no lugar do PP, o segundo colocado, porque abocanhou no primeiro turno a Prefeitura de Belo Horizonte, uma das três joias da Coroa da região Sudeste. Dissidência do DEM no momento em que seu criador e presidente, Gilberto Kassab, migrava nacionalmente do apoio ao PSDB para a adesão ao governo de Dilma Rousseff, o PSD — que já foi definido por ele como “nem de esquerda, nem de direita” — mostra que a aposta no pragmatismo rende frutos do ponto de vista eleitoral. Será um player fundamental para a construção de uma eventual candidatura de centro em 2022.

DEM – Paradoxalmente, as urnas de 2020 premiaram tanto a matriz quanto a filial. Se o PSD teve uma importante vitória quantitativa, o DEM, do qual o partido de Kassab é uma dissidência, teve o melhor desempenho nas capitais, conseguindo três vitórias no primeiro turno (Curitiba, Florianópolis e Salvador) e colocou Eduardo Paes no segundo turno no Rio, segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Além disso, não esqueçamos que o partido detém as presidências da Câmara e do Senado, e a auto-estima renovada deve impulsionar o plano de Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia de buscarem o tapetão para se reelegerem.

Bruno Reis (DEM) foi eleito em primeiro turno em Salvador. Foto: Reprodução/Twitter

PSOL e a nova esquerda – Enquanto se prestava atenção a um eventual duelo entre o PT de Lula e o PDT de Ciro Gomes foi o PSOL que desgarrou como força de uma nova esquerda que mostrou a cara nas urnas nos grandes centros em 2020. Só o feito de colocar Guilherme Boulos no segundo turno com 20% dos votos dos paulistanos já lhe garantiria esse pódio, mas o partido ainda disputa a prefeitura de Belém, com o veterano Edmilson Rodrigues.

MBL – Dentro da contagem de corpos da nova direita, rejeitada de forma retumbante nas urnas dois anos depois de seu triunfo, o Movimento Brasil Livre conseguiu aumentar sua relevância em São Paulo, maior colégio eleitoral do País, o que ajuda a compensar a derrota em Porto Alegre, cidade que deixou de fora do segundo turno o prefeito Nelson Marchezan, ligado ao movimento. Além de o candidato Arthur do Val ter alcançado quase 10% dos votos, o MBL terá não mais apenas 1, mas 3 representantes na Câmara paulistana. O Patriota deve cada vez mais ser um partido dominado pelo movimento.

Pessoas

Guilherme Boulos – Para além do crescimento do PSOL e independentemente de se vencer ou perder as eleições, Boulos colhe uma expressiva vitória pessoal: moderou o discurso e fez um bem sucedido retrofit de imagem, deixando de ser visto como radical e passando a ser o candidato de parcela importante da classe média rica e escolarizada de São Paulo, se dissociou de uma espécie de caricatura do Lula dos anos 1970 e 80 que insistia em fazer, até nos trejeitos e na fala, e incorporou aquilo que Lula e Ciro sonhavam: o porta-voz nacional do repúdio a Jair Bolsonaro, o que o cacifa imediatamente para 2022.

Guilherme Boulos acompanhado da família. Foto: Felipe Rau/Estadão

ACM Neto – A paciência é uma virtude do prefeito de Salvador que certamente não foi herdada do avô. ACM Neto resistiu ao canto da sereia para se candidatar ao governo da Bahia em 2018. Leu de forma correta que aquela era uma eleição polarizada, que seria travada fora dos marcos previsíveis da política. Presidente do DEM, entrega em “casa” o prefeito de capital com mais votos proporcionais da eleição e outros dois filiados eleitos previamente. Seu partido, que quase foi extinto nos anos petistas, renasce como grande ator das articulações nacionais com vista à 2022, e ele larga na frente tanto para ser governador da Bahia como para integrar uma chapa de centro à Presidência.

Alexandre Kalil – No triunfo do PSD também merece destaque pessoal a trajetória do prefeito de Belo Horizonte. Eleito em 2016 como completo outsider, negando a política e os partidos, ele mudou totalmente de discurso, de estratégia e de imagem. Na pandemia, conduziu um dos mais severos planos de distanciamento social, que deu a BH uma situação de vantagem em relação às outras capitais do Sudeste e ajudou a pavimentar sua vitória. Mais de um ano antes da eleição, deixou o nanico PHS e foi para o PSD de Kassab, que também levou, em Minas, o ex-governador Antonio Anastasia. Numa terra em que PT e PSDB foram fulminados e Romeu Zema se acovardou da disputa municipal, Kalil já é favorito para a eleição ao governo.

Bruno Covas – A trajetória do prefeito de São Paulo lembra aquele “arco do herói” em roteiros de filmes e minisséries. De vice de João Doria Jr. e alguém que era visto como pouco afeito à gestão, ele deu uma guinada de imagem e de postura depois que revelou, há um ano, ter um câncer no aparelho digestivo, com metástase. O drama pessoal coincidiu com as mudanças que ele fez na gestão, tirando secretários de Doria e colocando no lugar pessoas de sua confiança, muitas vezes causando controvérsia com o governador. Também reforçou a identidade social-democrata da tradição do PSDB e do avô, Mário Covas, em contraposição ao perfil mais à direita do governador. Não terá um segundo turno fácil, como projetaram as pesquisas até aqui e terá de fazer escolhas de discurso que podem tisnar essa nova imagem. Além disso, persistem dúvidas quanto ao seu estado de saúde. Mas a campanha afirmativa, fria, calcada na defesa do diálogo e da política que fez o colocaram num patamar muito acima daquele em que estava antes da campanha, no PSDB e no quadro nacional.

Bruno Covas durante voto. Foto: Werther Santana/Estadão

Eduardo Paes – O ex-prefeito do Rio já pode levar o troféu “quem ri por último, ri melhor” desta eleição. Atropelado pela carreta furacão do bolsonarismo na eleição para o governo do Rio, na qual deve ter levado o mesmo susto do resto do País com o surgimento de um tal de Wilson Witzel, apostou desde sempre que o fenômeno de negação da política tinha vida curta. Saiu dos holofotes e só confirmou a candidatura na última hora, depois de construir uma aliança com PSDB e Cidadania. Terá pela frente um segundo turno mais tranquilo que o de Bruno Covas em São Paulo.

Manuela Dávila – Não será fácil a vida da candidata do PC do B em Porto Alegre no segundo turno. Além de enfrentar uma esperada união de esforços contra a esquerda, deve ser alvo de novos ataques machistas e misóginos que marcaram a primeira fase da disputa na capital gaúcha. Ainda assim, ela sairá desta eleição maior do que entrou. Seja pelo fato de ter conseguido uma rara união da esquerda em Porto Alegre, seja por ter conseguido mostrar identidade própria depois de em 2018 ter cumprido o papel ao qual o partido a que pertence se limitou nas últimas décadas: de coadjuvante do PT. Sua candidatura será um ponto de inflexão definitivo para o PC do B: vai em 2022 intensificar esse processo de independência ou voltará a ser o satélite na órbita de um PT envelhecido e enfraquecidos? Ela certamente terá voz nesse processo.

Marília Arraes – A candidata de Recife é um raro caso de renovação num PT envelhecido, não em termos de idade, mas de ideias e lideranças. Enquanto o partido fez apostas gastas na maioria das cidades, a herdeira petista do clã Arraes dá trabalho ao primo João Campos numa cidade e num Estado governados há anos por herdeiros políticos de seu tio Eduardo. É outro caso de alguém que, mesmo que perca, sai maior das eleições.

2. Quem perde

Partidos, movimentos e ideias

Nova política e lacração nas redes sociais – Depois da eleição de Jair Bolsonaro, governadores outsiders na sua cola e bancadas saídas diretamente do YouTube e das redes sociais para os parlamentos em 2018, o eleitor parece ter percebido que política não pode ser sinônimo de meme, lacração e destruição do adversários. Durou pouco a febre distópica.

Direita – Da mesma maneira, o que parecia um sinal consistente de guinada à direita do eleitorado, como mostraram inclusive análises sérias, como a do cientista político Jairo Nicolau, não resistiu à bagunça do governo Bolsonaro. Ao confundir conservadorismo com reacionarismo barato, o presidente prestou um desserviço à direita e propiciou o surgimento de uma nova esquerda amparada no discurso da defesa do espaço democrático, das minorias que ele fez questão de continuar insultando enquanto presidente e das instituições. Bolsonaro associou a direita ao autoritarismo, fazendo com que o pêndulo voltasse dois anos depois para o outro lado.

Negacionismo científico e desinformação – Da mesma forma, políticos que aderiram ao negacionismo e à postura irresponsável no trato da pandemia foram punidos nas urnas. A desinformação e as fake news, fatores tão importantes para o sucesso de Bolsonaro em 2018, perderam força graças à união de esforços das plataformas, que passaram a banir conteúdos claramente falsos, de veículos de imprensa e coalizões de checagem e da Justiça Eleitoral, que foi mais proativa no enfrentamento dessas ferramentas que na eleição presidencial.

PT – O partido colhe seu terceiro naufrágio seguido em eleições. A derrota de 2016 foi atribuída ao “golpe” do impeachment de Dilma Rousseff. A de 2018, ao “golpe” da condenação e prisão de Lula. E agora, com a Vaza Jato tendo revelado os bastidores da Lava Jato, com Sérgio Moro enfraquecido, com Lula solto e com o desgaste de Bolsonaro, qual a explicação para a fragorosa derrota do PT nos grandes centros? Não estaria na hora de o partido reconhecer que se divorciou dos anseios do eleitorado e que, mesmo quando olha de volta para a esquerda, não é o lulopetismo que ele procura?

PSL – O partido que já foi de Bolsonaro mostrou que, sem ele, é o que sempre foi: um nanico. Da mesma forma, a diáspora dos bolsonaristas por siglas aleatórias se mostrou pouco eficiente para repetir o fenômeno de 2018, e elas saem das urnas como nanicas.

Partido Novo – Divisão interna, insistência num discurso de fé cega na “meritocracia”, sem aderência no grosso da população e que não leva em conta o aumento da desigualdade gritante do Brasil depois da pandemia, a bipolaridade em relação ao governo de Jair Bolsonaro, a falta de ênfase na defesa da democracia frente ao autoritarismo e a insistência num discurso juvenil de “pureza” política pelo simples e banal fato de não usar fundo partidário ou verba de gabinete fez com que o Novo envelhecesse antes de amadurecer. O esperado crescimento nos Legislativos não veio, e o partido foi inexistente na disputa por prefeituras. No mapa da eleição, laranja é a cor mais fria.

O candidato do Novo à prefeitura de São Paulo, Filipe Sabará

O então candidato do Novo à prefeitura de São Paulo, Filipe Sabará Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Pessoas

Jair Bolsonaro – Com a covardia que lhe é característica, o presidente saiu da postura de fanfarrão eleitoral, promovendo lives diárias com candidatos de dentro do Palácio da Alvorada, usando servidores públicos na campanha e dirigindo imposturas a adversários que nem eram seus, só pelo fato de ser de esquerda, para a pressa em tentar se dissociar dos derrotados que ajudou a afundar e fingir que não era com ele. Não terá como fugir da pecha de grande âncora eleitoral de 2020. Porque enfiou o pé na jaca da campanha e achou que a rápida dose de energia que o auxílio emergencial lhe deu seria suficiente para “varrer” a esquerda do mapa e já lhe dar a vitória em 2022. Nem uma coisa nem outra. O presidente é o grande derrotado da eleição.

Presidente Jair Bolsonaro em live. Foto: Reprodução/Facebook

Lula – Outro cuja prepotência é inversamente proporcional ao poder de fogo. O ex-presidente quis que o PT de novo dedicasse a campanha a fazer um desagravo pessoal a sua situação judicial. Nas campanhas em que apareceu, candidatos como Luizianne Lins, em Fortaleza, e Benedita da Silva, no Rio, não foram adiante. A debacle petista em São Paulo e no ABC paulistas, berços do lulismo, mostram que o eleitorado não vê Lula como um injustiçado, como a narrativa petista insiste em vender.

O ex-presidente Lula

O ex-presidente Lula Foto: Werther Santana/Estadão

Romeu Zema – Tem vezes em que o excesso de “mineirice” cobra um preço. O governador de Minas é tão mineirinho, mas tão mineirinho, que preferiu ficar invisível na eleição municipal. O Novo não lançou candidato, ele ficou fora dos palanques, e agora sente o bafo de Alexandre Kalil no seu cangote para 2022.

Celso Russomanno – O candidato do Republicanos teve sua mais fragorosa derrota de uma série incrível de derretimento. Fica evidente que é um candidato que sempre se elege deputado graças ao recall televisivo. A associação com Bolsonaro acabou por ser o beijo da morte em sua candidatura.

Nelson Marchezan – O prefeito de Porto Alegre é um caso raro neste ano de prefeito incumbente que não conseguiu ir ao segundo turno. Pesaram para isso as denúncias que enfrenta e as brigas com o vice-prefeito. Porto Alegre confirma, assim, sua tradição de cemitério de políticos. Derrota também para o PSDB, que pela primeira vez governava o Estado e a capital, e pode atrapalhar os planos nacionais do governador Eduardo Leite.

3. Vão depender do ‘VAR’ do segundo turno

Justiça Eleitoral – Bem sucedido no combate à desinformação e às fake news e em garantir a segurança do voto em meio à pandemia, o TSE tomou gol contra no final do jogo com a demora na apuração, que foi explicada de forma confusa pelo presidente da Corte, ministro Roberto Barroso, e deu margem à proliferação de teorias da conspiração justamente quando os bolsonaristas já aderem a esse discurso da fraude eleitoral como muleta para as derrotas e prévia para 2022. Vai precisar corrigir o problema e dar show de agilidade no segundo turno.

João Doria e o PSDB – O partido, até aqui, tem um desempenho pior que o de 2016, quando emergiu das urnas como a grande força eleitoral (para logo em seguida ser engolfado pelo escândalo de Aécio Neves e humilhado nas urnas em 2018 com Geraldo Alckmin). Derrotado em Porto Alegre, o partido tem chance de empatar ou ganhar se levar São Paulo, batalha crucial para o projeto presidencial de seu principal líder hoje, João Doria Jr.

Ciro Gomes e o PDT – O eterno candidato do PDT à Presidência está no mesmo patamar de Doria: depende de uma vitória em casa, com Sarto, para se cacifar como força capaz de catalizar os votos da esquerda não-petista, caminho que vem trilhando desde 2018. O grande risco de Ciro é ser atropelado por uma mudança geracional, já que Guilherme Boulos está mais nos holofotes que ele, e tem um discurso mais fresco e menos conhecido, capaz de encantar corações e mentes, principalmente do eleitorado jovem.

 

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