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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Quem sai ganhando com a postura de Bolsonaro no conflito EUA-Irã?

Cassia Miranda

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Dentro do perfil de política externa adotado pelo Palácio do Planalto, que segue o “olavismo” em detrimento da “tradição diplomática”, a maneira como o governo vem reagindo em relação à crise entre EUA e Irã traz um ganho mais expressivo para o presidente Jair Bolsonaro do que para o País. Essa é a avaliação do professor de Relações Internacionais e Ciência Política da FGV Guilherme Casarões.

Em entrevista ao BRPolítico, o especialista destaca a importante relação comercial que o Brasil tem com o Irã e os perigos do alinhamento automático – mas previsível – com a Casa Branca.

BRP: Como avalia a nota do Itamaraty?
Guilherme Casarões: A ação brasileira tem que ser avaliada a partir de, pelo menos, duas óticas diferentes. A primeira é a do governo Bolsonaro e do grupo “olavista” que está à frente da política externa. Para eles, o alinhamento com Trump é o principal interesse brasileiro neste momento. Não estamos falando de ganhos tangíveis, mas da tentativa de reconstituir a imagem do Brasil associada à dos Estados Unidos. Nesse sentido, a nota do Itamaraty é coerente, pois endossa a ação militar de Trump e coloca o Brasil como parte da chamada guerra ao terror (lembrando que, em outros tempos, o Brasil não considerava o terrorismo como prioridade estratégica). A segunda ótica é a da tradição diplomática, aquela de que o ministro da Relações Externas Ernesto Araújo diz querer se livrar. Historicamente, a política externa brasileira se baseou em três pilares: pacifismo, multilateralismo e universalismo. O Brasil sempre se recusou a participar de conflitos internacionais, sempre defendeu o estrito respeito ao direito internacional e sempre buscou manter boas relações com todos os países do mundo.

BRP: O que a diplomacia recomenda em uma situação como essas?
Guilherme Casarões: A recomendação da boa diplomacia é sempre “desescalar”, ou seja, evitar que os desdobramentos de uma crise agravem as tensões e levem ao aumento da violência. A posição brasileira, ao tomar um lado muito claro, ignorando o direito internacional e ratificando as ações americanas, vai no caminho contrário.

BRP: O Brasil erra ao se meter em uma briga como essa sem ter sido chamado?
Guilherme Casarões: Diante disso, sobretudo levando-se em conta que temos boas relações comerciais com o Irã (são grandes compradores de milho, carne e soja) e que nossa tradição diplomática sempre foi motivo de respeito internacional, creio ser prejudicial abandonarmos uma postura moderada em benefício da relação com os EUA. A maneira como o governo Bolsonaro vem conduzindo suas reações à crise entre EUA e Irã é, portanto, um ganho muito mais para o presidente e seu núcleo ideológico, que fortalecem as relações com a base, do que algo que possa beneficiar os interesses brasileiros no longo prazo.