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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Questão moral pesa mais que renda para eleitorado pobre, diz pesquisa

Alexandra Martins

O voto da população mais pobre do País não é mais guiado majoritariamente pela dimensão econômica em decorrência da influência que recebe das lideranças evangélicas pentecostais. A variante de renda perdeu espaço para temas de ordem moral considerados mais prioritários para essa categoria religiosa, fazendo com que os mais pobres não votem em partidos de esquerda associados a pautas redistributivas. O paradoxo é o principal resultado da pesquisa do cientista político Victor Araújo feita no Centro de Estudos da Metrópole, da USP, sob orientação da professora Marta Arretche.

Santinhos de candidatos jogados em via pública antes da eleição de 2018

Santinhos de candidatos jogados em via pública antes da eleição Foto: Fabio Motta/Estadão

A pesquisa compara as tendências de votos dos católicos; dos evangélicos tradicionais, que incluem as igrejas protestantes históricas, como metodistas, batistas, presbiterianos, anglicanos e congregacionais; e dos pentecostais, que englobam as igrejas Assembleia de Deus, Cristã do Brasil, Deus é Amor, Brasil para Cristo e Quadrangular, nas eleições presidenciais entre 2002 e 2018. O grupo dos evangélicos pentecostais é composto por indivíduos de baixa renda residentes em áreas periféricas dos grandes centros urbanos. Já os neopentecostais, das Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do poder de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Renascer em Cristo, têm menor apelo às questões morais.

A distinção das categorias evangélicas – tradicionais e pentecostais – se faz importante porque segundo o Censo de 2010, dos que se declararam evangélicos, 60% eram de origem pentecostal, 18,5%, evangélicos de missão, e 21,8 %, evangélicos não determinados. As projeções demográficas combinadas com dados censitários mais recentes também permitem afirmar que o crescimento dos evangélicos é puxado pela expansão desses pentecostais. Até 2040, obedecidas as tendências das duas décadas, os cristãos evangélicos serão maioria no Brasil.

A pesquisa explora ainda os efeitos da implementação de políticas redistributivas, como o Bolsa Família, no Nordeste, onde os pentecostais punem eleitoralmente o PT. A preferência dessa categoria evangélica altera a compreensão de que a Região é fiel ao partido porque é beneficiária da política social. “Parece mais provável que o PT tenha crescido mais no Nordeste porque o efeito eleitoral do Bolsa Família é maior entre católicos. Como os católicos são maioria no Nordeste, o PT leva vantagem. Nesse caso, a religião é uma variável interveniente importante. Não me parece existir um efeito puro de Região. Em outras palavras, católicos tendem a votar no PT mesmo estando fora do Nordeste. E pentecostais tendem a não votar no PT mesmo quando estão no Nordeste”, diz o pesquisador de pós-doutorado na área de Economia Política e Desenvolvimento na Universidade de Zurique, Suíça. Leia abaixo a íntegra da entrevista.

BRP – Por que pobres não votam em plataformas eleitorais redistributivas?

Victor Araújo – Os eleitores pobres brasileiros (aqueles com renda familiar total abaixo de 2 salários mínimos) tendem a não votar em candidatos de esquerda. Foi assim, por exemplo, com os candidatos do PT à Presidência entre 2006 e 2018. O que faço na minha pesquisa é mostrar que esse efeito é puxado pelos pobres evangélicos pentecostais. Mostro que o comportamento eleitoral desse grupo é resultado da atuação eleitoral das lideranças dessas igrejas que mobilizam os eleitores de baixa renda contra os partidos e candidatos de esquerda.

Como é a atuação dessas lideranças pentecostais nessa relação entre candidatos e fiéis? Há pressão para que não se vote em partidos ligados à esquerda?

Os pastores e lideranças das igrejas pentecostais atuam como cabos eleitorais. Durante os cultos, os pastores fazem uso de sua posição institucional para influenciar o voto de uma massa de fiéis disposta a seguir a liderança espiritual de suas referências eclesiásticas. A mobilização pode ocorrer de maneira indireta, quando pastores associam determinadas candidaturas (sem explicitamente revelar seu posicionamento eleitoral) a forças opressoras e malignas, ou assumir uma forma mais direta, quando esses mesmos líderes revelam sinais e orientações divinas para votar em um determinado candidato. Trata-se de um fenômeno de longa data nas eleições brasileiras. Em geral, a parcela pentecostal do eleitorado vota contra candidatos de esquerda. Em 1989, por exemplo, o pastor Manuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus, declarou ao Jornal do Brasil: “Após orar e pedir a Deus que indicasse uma pessoa, o Espírito Santo nos convenceu de que Fernando Collor era o escolhido”.

Como a pesquisa lida com a premissa básica de que partidos e eleitores são guiados pelo voto econômico?

As teorias tradicionalmente utilizadas por cientistas políticos e economistas assumem que a renda é a dimensão mais importante para explicar o voto dos indivíduos. Esses modelos, no entanto, capturam apenas parte da realidade. Como explicar que eleitores de baixa renda, aqueles a quem mais interessa que o Estado aumente o gasto social, votem frequentemente em candidatos com plataformas eleitores anti-redistributivas? A minha pesquisa refuta essa ideia e trabalha com um espectro mais amplo de possibilidades para explicar o voto no Brasil. Por exemplo, mostro que o a religião pode “distrair os pobres” ao tornar a dimensão moral mais importante para essa porção do eleitorado do que a dimensão renda. Uma contribuição adicional da minha pesquisa é mostrar que a forma como as religiões instrumentalizam o uso do conservadorismo moral nas eleições também varia substantivamente. Neste sentido, os eleitores evangélicos tradicionais estão mais próximos dos eleitores católicos do que de seus pares pentecostais.

Qual é a importância de se fazer distinção entre evangélicos tradicionais e pentecostais? 

O grupo “evangélico” costuma ser tratado como uma categoria homogênea. Mas esse grupo abriga heterogeneidades importantes em seu interior. As igrejas evangélicas de orientação pentecostal foram pioneiras no Brasil no processo de mobilização eleitoral de seus fiéis. As eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (ocorridas em 1986) foram um marco. Na ocasião, a igreja Assembleia de Deus elegeu 33 deputados, nomes que foram referendados internamente nas convenções da igreja e apoiados por pastores e lideranças locais em todo o Brasil.  As lideranças das igrejas pentecostais são também mais conservadoras na dimensão moral. A base doutrinária pentecostal estimula um comportamento fundado em um proselitismo de cunho fortemente moralizante. Desse modo, os adeptos do pentecostalismo se veem, não apenas como guardiões de sua própria santidade, mas também corresponsáveis pela manutenção do padrão moral da sociedade como um todo. Por isso, o conservadorismo moral tende a ser mais forte entre os evangélicos pentecostais. O grupo dos evangélicos pentecostais é composto por indivíduos de baixa renda residentes em áreas periféricas dos grandes centros urbanos. O pentecostalismo tende a ser predominante nas áreas com maior desigualdade de renda, diferentemente das religiões evangélica tradicional e católica. Os evangélicos tradicionais, por seu turno, tendem a ser mais escolarizados, mais informados e mais críticos às atitudes e posicionamento de suas lideranças. No interior deste grupo, também existe mais resistência à ideia de que os cristãos devem participar da arena política ocupando cargos eletivos. Embora esse padrão venha sendo alterado nos últimos anos, provavelmente como uma resposta ao movimento pentecostal que se tornou dominante na política partidária brasileira. Aqui uma distinção importante. Os termos “pentecostalismo” e “neopentecostalismo” costumam ser utilizados de forma intercambiável, algo que deveríamos evitar em nome do rigor e da precisão. As denominações neopentecostais (e.g. Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do poder de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Renascer em Cristo) possuem características peculiares que as distinguem das igrejas pentecostais clássicas. As principais são a forte orientação para a Teologia da Prosperidade – corrente da teologia evangélica que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos –  e menor apelo às questões morais. Por exemplo, o líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, defende abertamente a descriminalização do aborto. Além disso, em 2010, a igreja declarou publicamente apoio à candidatura da petista Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto. Algo que já havia ocorrido antes nas eleições de 2002 e 2006, quando o então candidato Lula concorreu à Presidência. Diversas pesquisas etnográficas mostram que, nas igrejas neopentecostais, a dimensão moral é menos enfatizada por suas lideranças. Neste caso, a dimensão renda, materializada pela teologia da prosperidade, é muito mais importante para este grupo. Por isso, no meu trabalho, defendo que esses grupos (tradicionais, pentecostais e neopentecostais) devem ser tomados como categorias independentes.

Qual é o desempenho dos candidatos de esquerda, ou do PT, entre os eleitores evangélicos pentecostais no período estudado?

Os dados de nível individual indicam que o PT tende a ser punido nas urnas pelo eleitorado pentecostal. Entre 2006 e 2018, a probabilidade de um eleitor pentecostal votar no PT foi sempre baixa, independente de raça, cor, escolaridade, sexo ou região. Os dados de nível agregado (por município) revelam um cenário interessante e pouco explorado por especialistas até agora: entre 2002 e 2014, o PT venceu as eleições presidenciais porque conseguiu aumentar sua influência eleitoral em diversas porções do território brasileiro. Mas é interessante notar que o PT não cresceu, ou cresceu a taxas residuais, nos municípios com maioria pentecostal. O uso de algumas ferramentas estatísticas me permitiu testar o efeito da concentração espacial do pentecostalismo sobre a votação do PT. É possível afirmar com relativa segurança que uma forte concentração pentecostal tende a se traduzir em desvantagem eleitoral para o PT nas eleições presidenciais. Um exemplo: imagine um conjunto de municípios vizinhos onde em todos eles a população é majoritariamente evangélica pentecostal. Neste aglomerado de municípios, que nós chamamos tecnicamente de clusters, a rejeição aos candidatos do PT tende a ser alta. Em um mesmo aglomerado de municípios, mas de maioria católica, a rejeição ao PT tende a ser baixa. Isso explica, em grande medida, porque o partido conseguiu formar uma base estável de eleitores apenas no Nordeste, região onde o catolicismo ainda é dominante.

Por que o PT não conseguiu crescer entre os eleitores pentecostais?

Os candidatos de esquerda, dentre os quais também se enquadram os petistas, tendem a ser vistos como defensores de pautas mais progressistas como união entre casais homoafetivos e descriminalização de drogas e do aborto. O que, no caso do PT, é um paradoxo. Durante as suas gestões (governos Lula e Dilma), o partido foi criticado várias vezes por uma certa timidez nas políticas de extensão de direitas às minorias. De fato, alguns temas, como a regulamentação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, foram pautados pelo STF e não pelo Executivo, como era esperado. O fato é que as lideranças pentecostais associam os partidos de esquerda a uma pretensa degeneração moral dos valores cristãos da família. Por exemplo, nas eleições presidenciais de 2018, o pastor Silas Malafaia, um dos maiores líderes pentecostais no Brasil, ajudou a promover a campanha de Jair Bolsonaro contra o então candidato petista Fernando Haddad (Antes disso, Silas Malafaia apoiou e fez campanha publicamente para Geraldo Alckmin (2006), José Serra (2010) e Aécio Neves (2014)). No dia do segundo turno das eleições, Malafaia afirmou o seguinte em suas redes sociais: “Hoje! Em Nome de Jesus! A verdade vai prevalecer contra a mentira, cinismo, corrupção, destruição dos valores morais, sexualizar crianças, liberação de drogas e outros tantos lixos morais. O Brasil é do Senhor Jesus!”.

Os conservadores procuram mais as igrejas evangélicas ou o pentecostalismo os tornam mais conservadores?

Essa é uma pergunta recorrente e importante.  Uma hipótese é que os indivíduos mais conservadores seriam mais atraídos pelas igrejas pentecostais. Neste caso, o conservadorismo moral não seria resultante da atuação dos pastores, mas sim um efeito do conservadorismo inato desses indivíduos. Para tentar desvendar essa questão, utilizei dados de pesquisas em formato painel (que entrevistam os mesmos indivíduos em diferentes pontos no tempo) para acompanhar uma amostra de mais de 9 mil indivíduos no Brasil. Depois de convertidos ao pentecostalismo, os dados indicam que os indivíduos alteram suas percepções morais em duas direções: passam a enxergar mais corrupção nos candidatos de esquerda e a valorizar mais a honestidade do que a competência dos candidatos. Os resultados indicam, portanto, que os indivíduos mudam sua percepção moral após a conversão ao pentecostalismo, e não o contrário.

Esse resultado não poder ser um efeito dos escândalos de corrupção (Mensalão e Lava Jato, por exemplo) ocorridos nos governos petistas?

O esquema do mensalão foi noticiado pela primeira vez no dia 14 de maio de 2005 pela Revista Veja, praticamente 12 meses depois que a pesquisa foi realizada. As entrevistas que deram origem aos dados em painel utilizados nesta parte da minha pesquisa foram conduzidas entre março de 2002 e maio de 2004. Portanto, por uma questão temporal, é improvável que esse resultado seja um efeito dos esquemas de corrupção que vieram à tona meses depois.

Em qual categoria religiosa o Bolsa Família produziu mais retornos eleitorais ao PT?

Muito já foi dito sobre os efeitos da implementação do Bolsa Família (BF) sobre a votação do PT nas eleições presidenciais brasileiras. O que me parece ainda pouco explorado é como esse efeito varia entre os grupos religiosos. Os resultados da minha pesquisa indicam que os beneficiários do BF católicos e evangélicos tradicionais (sem incluir pentecostais) tendem a recompensar os candidatos do PT nas eleições presidenciais. Mas o mesmo não pode ser dito para os beneficiários pentecostais. Entre estes eleitores pobres, o PT não foi capaz de conseguir mais votos nas eleições presidenciais realizadas entre 2006 e 2018. Isso coloca a dicotomia Nordeste versus o resto do Brasil em xeque.

Por quê?

Os especialistas costumam argumentar que o Nordeste vota no PT porque essa Região abriga uma maior proporção de beneficiários do Bolsa Família. Mas os dados da minha pesquisa complexificam um pouco essa questão. Parece mais provável que o PT tenha crescido mais no Nordeste porque o efeito eleitoral do Bolsa Família é maior entre católicos. Como os católicos são maioria no Nordeste, o PT leva vantagem. Nesse caso, a religião é uma variável interveniente importante. Não me parece existir um efeito puro de Região. Em outras palavras, católicos tendem a votar no PT mesmo estando fora do Nordeste. E pentecostais tendem a não votar no PT mesmo quando estão no Nordeste. Isso é que nós cientistas costumamos chamar de falácia ecológica: atribui-se o resultado eleitoral a uma característica geográfica (região, neste caso), quando, na verdade, o resultado é explicado por características dos indivíduos (religião, neste caso). Esse resultado enfraquece a explicação corrente entre cientistas políticos brasileiros de que o Bolsa Família produziu eleitores cativos para o PT no Nordeste. Esse efeito parece ser fortemente mediado pela variável religião.

Qual é o peso do sentimento de abandono social para os eleitores pobres na hora do voto?

Um dos fatores que explica o crescimento das igrejas pentecostais nas áreas pobres urbanas é a capacidade dessas igrejas para compreender a realidade dos moradores desses locais. Além de um culto menos litúrgico e mais adaptado a um público menos escolarizado, as igrejas pentecostais também oferecem uma rede de apoio e assistência aos seus membros. Em um contexto de elevada desigualdade e dificuldade de penetração do Estado, as lideranças pentecostais tornam-se referências para uma parte importante do eleitorado de baixa renda. O que boa parte dessas lideranças faz é aproveitar dessa vulnerabilidade para transformar esse sentimento de abandono social em votos contra os “inimigos do povo de Deus”, geralmente os candidatos à esquerda do espectro ideológico.

Quais são os dados mais recentes dos demógrafos de populações religiosas?

A combinação dos dados censitários com as projeções demográficas mais recentes permite afirmar que os cristãos evangélicos serão maioria no Brasil antes de 2040, mantidas as taxas atuais de crescimento.  Esse crescimento dos evangélicos é puxado pelo crescimento dos pentecostais. Hoje, a cada 3 novos pentecostais, 2 eram católicos antes da conversão.

Como esse fenômeno deve afetar as eleições no Brasil? 

O fortalecimento da identidade religiosa exige um esforço de adaptação da elite política. Para os partidos de direita, em geral mais orientados por políticas pró-mercado e, portanto, mais próximos do eleitorado de renda média e alta, adotar pautas morais pode significar também alcançar os eleitores conservadores de baixa renda, como parece ter sido o caso na eleição do candidato Jair Bolsonaro em 2018. Os partidos de esquerda têm como primeira opção tentar enfraquecer a pauta moral e recolocar no centro do debate a dimensão de renda. Neste caso, existe o risco de perder apoio da parcela mais conservadora do eleitorado que não segue a lógica econômica do voto. Uma segunda opção é tentar se distanciar de pautas mais progressistas que possam minar o apoio eleitoral dos pobres conservadores. Mas existe o risco de perder apoio entre os eleitores de renda média com maior escolaridade, bem como de parte da militância organizada e representantes de grupos minoritários afetados por uma agenda política moralizante. Uma terceira opção é acirrar a polarização nas eleições, explorando a identidade religiosa do eleitorado. Por exemplo, os partidos de esquerda podem mobilizar parte do eleitorado religioso em seu favor por meio de um discurso identitário. Mas o sucesso dessa estratégia depende do crescimento de longo prazo dos grupos religiosos que rivalizam nas eleições. No caso brasileiro, mobilizar o eleitorado católico contra o eleitorado evangélico pentecostal pode significar prejuízo eleitoral futuro, dado que este último grupo será maioria já na próxima década.

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