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por Marcelo de Moraes

Reconstrução do País, abalado pela pandemia, é o desafio de 2021

Marcelo de Moraes

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Os últimos dias do ano indicam um quadro de apreensão para 2021. Os números da pandemia do novo coronavírus voltaram a aumentar e o governo tem demonstrado desorganização no combate à doença e na elaboração de um plano nacional de vacinação. Com isso, além de o risco de contaminações seguir elevado, também se torna mais difícil a tarefa de recuperar plenamente a atividade econômica.

Guedes acredita que 2021 será o ano da economia. Para Bolsonaro, será um ano decisivo se quiser ambicionar a reeleição.Foto: Marcos Corrêa/PR

Não há dúvidas de que quanto mais cedo e mais intenso ocorrer o processo de vacinação, mais rápido os problemas tendem a diminuir. A questão é que a estratégia do governo para atacar o problema tem se movido muito mais por pressão da opinião pública e por decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) do que por iniciativa própria.

O ano de 2021 começará com problemas centrais já precisando ser resolvidos. A vacinação é, obviamente, o maior deles. O governo precisaria já estar preparado na sua logística e com o maior número possível de vacinas disponíveis para tentar imunizar a população. Não é o que ocorre. Somente na semana passada, o Ministério da Saúde abriu seu processo para compra de seringas e agulhas – embora fosse óbvio que seriam necessárias.

A aquisição das vacinas também se transformou numa questão complexa e que esbarra no negacionismo do presidente em relação à pandemia do coronavírus. Depois de pregar contra “a vacina chinesa”, se referindo à Coronavac produzida numa parceria entre a Sinovac e o Instituto Butantan, Jair Bolsonaro torpedeou também a da Pfizer. Numa fala debochada, fez piada sobre riscos que a vacina poderá causar dizendo que as pessoas podem virar “jacaré” se a tomarem.

A isso somam-se as dificuldades políticas. O Congresso termina o ano em ebulição interna por causa da disputa pelo controle da presidência da Câmara e do Senado. Bolsonaro tenta emplacar seus aliados nas duas Casas para influenciar na sua agenda de votações, mas a resistência, especialmente na Câmara, é muito forte.

Nesse clima, é difícil contar com uma aprovação rápida de propostas importantes para a recuperação da economia e também para a proteção social das pessoas mais vulneráveis aos efeitos da pandemia. As reformas tributária e administrativa estão completamente travadas. Não foi construído o novo projeto de ajuda social: o Renda Brasil não saiu do papel e, a partir de janeiro, não haverá mais o auxílio emergencial.

Naturalmente, que isso só complica o cenário da economia que lida com o aumento da inflação e com uma previsível lentidão na recuperação do crescimento. O PIB deve encolher em torno de 4,5% e a previsão de crescimento para 2021 gira em torno de 3,5% a 4%. Ou seja, talvez não seja suficiente sequer para compensar as perdas de um ano marcado pela devastação provocada pela pandemia do coronavírus. Embora o ministro Paulo Guedes, preveja que 2021 será o ano da economia, há muitas lições de casa a serem feitas antes de contar com uma recuperação robusta para o País.

Para Bolsonaro, é um ano decisivo se quiser ambicionar a reeleição. Terá ultrapassado a metade de seu governo e precisa ter algo para apresentar aos seus eleitores. E, até agora, tem muito pouco a apresentar. Na economia, tentará acelerar o processo de privatizações. Mas esbarra na própria aliança política que montou com o Centrão. O grupo prefere a manutenção das estatais e ocupar seus valiosos cargos.

O presidente também vê aumentar a pressão política contra as suspeitas de uso da Abin para ajudar na defesa de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), no chamado “esquema das rachadinhas”. Conforme a evolução dessa investigação, determinada pela ministra Cármem Lúcia, do STF, a crise pode atingir de vez o núcleo familiar de Bolsonaro.

Com essas dificuldades no radar, a tarefa da reconstrução do País parece ser difícil a curto prazo. É importante repetir que a velocidade na solução da questão da vacinação deverá ser determinante para saber se o Brasil conseguirá acelerar sua retomada ou se passará mais um ano imerso em problemas.

 

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