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por Marcelo de Moraes

Relação Brasil-EUA não mudará após eleição, mesmo se Biden vencer

Mario Vitor Rodrigues

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“Nossa parceria com os Estados Unidos está alicerçada em dois pilares básicos: o primeiro, a convergência de princípios, valores e objetivos; o segundo é a busca de benefícios concretos para as nossas nações”. A fala é do presidente da República. Foi com ela que Jair Bolsonaro abriu o 2020 U.S.-Brazil Connect Summit, há uma semana.

Joe Biden, candidato democrata à presidência dos EUA. Foto: Andreas Gebert/Reuters

O evento celebrou acordos firmados pelos setores privados brasileiro e americano com o intuito de afinar práticas regulatórias e diminuir a burocracia. Para além de Bolsonaro, do chanceler Ernesto Araújo e do ministro da Economia, Paulo Guedes, também participaram o secretário de Estado Mike Pompeo, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien, e o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría. As tratativas, porém, correram em paralelo às esferas governamentais.

É possível dizer que o encontro foi um reflexo da relação entre Brasil e Estados Unidos: distante, mas eventualmente contornada por interesses de investidores de ambos os países.

Por meio de uma agenda de valores e principalmente da pauta econômica, o governo Bolsonaro moveu a agulha na direção de uma maior sincronia com Washington. Ainda assim, o resultado da eleição não mudará a realidade. Mesmo em caso de vitória democrata.

Descompasso paradoxal, histórico de choques e desconfiança

Entender por que a ligação entre Brasil e Estados Unidos jamais evoluiu a ponto de figurar na prateleira das grandes alianças não é simples. Embaixador em Washington durante o governo Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero chegou a cunhar o termo “descompasso paradoxal”. Ainda hoje os americanos usam benign neglect. Em tradução livre, deixar que as situações tomem seu curso sem maiores interferências.

ALCA, liberdade intelectual, protagonismo no acordo nuclear com o Irã e até a ex-presidente Dilma Rousseff sendo grampeada. Não há de ser por acaso que, longe dos microfones e analisando de um ponto de vista histórico, diplomatas enxergam na postura americana sinais de desconfiança.

Trata-se de uma relação assimétrica, contudo nosso perfil “híbrido”, de país em desenvolvimento, mas que conta com riquezas naturais, indústria e um pujante agronegócio bifurca o cenário: por um lado nos fortalece — segundo o Departamento de Comércio americano, fechamos 2019 como o país que mais contribuiu favoravelmente para a balança comercial dos EUA —; por outro, consolida a ideia que não somos fáceis de conduzir.

Bolsonaro torcendo por Trump e a influência da ala progressista democrata

Não importa o pano de fundo, a postura brasileira nos confrontos do pleito americano fere as regras mais básicas da diplomacia. Durante visita à capital americana, um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) — que por pouco não foi alçado ao posto de embaixador em Washington — usou um boné no qual se lia “Trump 2020”. O próprio Jair Bolsonaro, em fala recente, chegou a afirmar que “se Deus quiser” Trump será reeleito.

Não bastasse esse comportamento na melhor das hipóteses descuidado, ainda houve as queimadas na Amazônia, provocando reações fortes das grandes potências e, nos Estados Unidos, de figuras importantes do Partido Democrata.

Caso as pesquisas se confirmem e Joe Biden seja eleito, é de se esperar que sofra pressão do Congresso para cobrar que o governo brasileiro reveja sua política ambiental. Daí a imaginar que os Estados Unidos tomarão medidas duras contra o Brasil vai uma longa distância.

5G e compras de armamento: a continuação da estabilidade se justifica

Para além de não constar na lista de prioridades americana e dos mútuos interesses entre os setores privados de ambas as nações, fatores de ordem prática desestimularão Biden, ou mesmo Trump, a jogar duro.

O primeiro deles, acima de qualquer outro, é a implementação da tecnologia 5G. Na América Latina, apenas México e Brasil ainda não abriram as portas para a gigante Huawei. Washington sabe disso. López Obrador e Bolsonaro também.

Pressionar o Brasil além do razoável — algum tipo sanção econômica, por exemplo — significaria correr o risco de empurrar Brasília para a esfera de influência chinesa. Não custa lembrar que há um ano, durante visita a Pequim, o presidente brasileiro não hesitou em convidar os chineses para participar do leilão do pré-sal.

Esse é o principal argumento a favor de Brasil. Não é o único.

Há também a intenção de compra de armamento americano por parte do governo brasileiro. É difícil imaginar a Casa Branca se colocando na situação de ter de explicar aos fabricantes de armas locais que, por retaliações envolvendo pautas como a do aquecimento global, vendas foram prejudicadas.

A administração Jair Bolsonaro vem se esforçando desde o início para melhorar a relação entre Brasil e Estados Unidos, abrindo caminhos que durante os últimos governos não pareciam viáveis. Ao mesmo tempo, o fato desse elo ser marcado pela frieza torna a posição brasileira ainda mais favorável.