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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Rubens Ricupero: ‘Brasil terá de contar com suas próprias forças’

Gustavo Zucchi

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Os Estados Unidos devem em breve concluir a apuração dos votos da disputa entre Joe Biden e Donald Trump. Mas a promessa do atual presidente americano de judicializar a disputa é o sinal de que a eleição pode estar longe de acabar. E, na opinião do ex-embaixador brasileiro e ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, é um sinal de que, independentemente do vencedor, os problemas que marcaram o pleito continuam.

“Tudo leva a crer que os Estados Unidos vão ter um período complicado pela frente”, disse Ricupero em entrevista ao BRPolítico. Claro que essa complicação influencia em solo brasileiro, que nos últimos tempos viu sua diplomacia promover um alinhamento com Trump e suas ideias. “Acho que o Brasil vai ter que contar mesmo com suas próprias forças”, disse. Confira a entrevista na íntegra.

O ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e Itália Rubens Ricupero

O ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e Itália Rubens Ricupero Foto: Werther Santana/Estadão


BRPolítico – Vemos uma disputa nos Estados Unidos que parece caminhar para a judicialização. Como o senhor está vendo esse imbróglio?
Rubens Ricupero – Independente do resultado final, de quem será consagrado como vitorioso, acho que até agora essa eleição acabou-se parecendo muito pode 2016.  Ao contrário dos prognósticos, que dessa vez as pesquisas de opinião tinham corrigidos seus métodos e que a liderança do Joe Biden era bem mais considerável, o que nós vimos um pouco é repetição da eleição de 2016. Trump surpreende em quase todos os lugares em que se dizia que ele ia perder ou que estava muito próximo disso. Ele acabou sendo vitorioso na Flórida, na Geórgia e no Texas. Mesmo aqueles estados do Meio Oeste, ele tem um desempenho muito forte. Então acho que isso indica que houve um certo precipitação por parte do próprio Biden e dos Democratas em geral de considerar que o fenômeno Trump era uma anomalia, uma coisa provisória daquele momento.

Por que “precipitação”?
O que se vê é que as causas que levaram a vitória do Trump há quatro anos ainda estão presentes. E esse é um profundo mal-estar na sociedade Americana e que uma parcela muito grande da sociedade, a mesma que em 2016 optou pelo Trump, continua fiel a ele. Embora não se possa dizer que Trump tenha encaminhado uma solução aos problemas. Então a conclusão é que a sociedade americana continua muito dividida muito polarizada muito radicalizada. Qualquer que seja solução, vai ser uma solução pouco convincente. Uma solução com pouca diferença entre o vitorioso e o vencido. O que leva a crer que os Estados Unidos vão ter um período complicado pela frente.

O quão complicado?
É difícil imaginar que o país tão dividido como os Estados Unidos estão mostrando ser tenha condições de enfrentar esse desafio chinês, algo que exigiria muita unidade de propósitos. Então como eu disse o que se pode concluir a essa altura: pode ser que fique ainda pior porque se a decisão final vier por uma medida da Suprema Corte, que seja tão contestada quanto duvidosa. Como foi a vitória do George W. Bush em 2000.

Essa promessa de Trump de judicializar o resultado é o sinal mais claro dessa crise institucional?
Acho que é uma revelação clara dessa crise. Não é a primeira vez. No ano 2000 já houve uma decisão desse tipo também. Então não é a primeira vez que o candidato que ganha no voto popular acaba perdendo e pode ser privado da vitória por causa do colégio eleitoral.  Então esses defeitos já vem de algum tempo agora ainda mais com a suprema corte com uma maioria tão forte a favor do Trump. Isso poderia aprofundar essas fraturas da sociedade americana. Tudo indica que, seja lá qual for a solução, os Estados Unidos não saem fortalecidos descer episódio e podem sair até mais machucados, mais divididos e com problemas para os anos futuros.

Vimos o Brasil se alinhando muito com Donald Trump. Inclusive ajudando na disputa eleitoral na questão da tarifa de exportação do etanol até o fim do ano. Como fica essa relação com uma vitória confirmada de Joe Biden?
No fundo, foi uma relação de mão única. Favoreceu muito mais os interesses americanos que o brasileiro. Além de não conseguirmos nada em troca da prorrogação da tarifa de etanol, Trump ainda agravou a situação das exportações brasileiras de chapas de alumínio. Ele impôs novas tarifas através de processos de antidumping e também das exportações de aço. Então até agora esse tipo de relacionamento não produziu nenhum benefício tangível para o Brasil. Com a vitória de Biden, pode haver alguns problemas com essa agenda brasileira de Meio Ambiente, Amazônia e mesmo questões com os povos indígenas, de política de gênero, que é muito conflitiva com agenda predominante do Partido Democrata. Mas acho que no primeiro momento, talvez durante muito tempo, qualquer governo dos Estados Unidos, com tantas questões internas para cuidar, que as relações com o Brasil, que é um país periférico, não tem grande importância como a China, não é a União Europeia, não é nem mesmo como México que é um vizinho,  é de uma prioridade muito baixa. O Brasil hoje em dia é importante para nós, mas para eles é a última consideração que eles estão fazendo nesse momento. Não há muito que esperar. Acho que o Brasil vai ter que contar mesmo com suas próprias forças.