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por Marcelo de Moraes

Santos Cruz: ‘Brasil tem duas doenças graves: o fanatismo e a corrupção’

Gustavo Zucchi

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O roteiro se repete: assim como aconteceu com o general Santos Cruz, logo nos primeiros meses de governo, militares que fazem parte do primeiro escalão voltaram a ser alvos da chamada “ala ideológica” nas últimas semanas. Em meio a esse turbilhão no qual cabeças das Forças Armadas se meteram, Santos Cruz faz um alerta em conversa com o BRP: “Brasil tem mais duas doenças graves infecciosas: a corrupção e o fanatismo”.

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz durante cerimônia no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz durante cerimônia no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foto: Adriano Machado/Reuters

No olho do furacão atual estão Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), que trocou farpas com Ricardo Salles (Meio Ambiente), e Eduardo Pazuello (Saúde), que teve de recuar após dizer que compraria doses da vacina Coronavac, o que irritou olavistas e terraplanistas que não querem saber de vacinação. Ainda um terceiro militar, o general Rêgo Barros, que atuou como porta-voz do governo, também se manifestou nessa semana, reforçando a ideia de que Jair Bolsonaro vira as costas para aliados.

“Hierarquia e disciplina são princípios de estrutura e valores que nada tem a ver com submissão e nem podem ser reduzidos a uma relação de mandar e obedecer”, disse o general. Confira a entrevista completa:

BRPolítico – General, o senhor comentou em seu Twitter sobre uma fala do general Eduardo Pazuello, atual ministro da Saúde, sobre “um manda e outro obedece”. Acredita que é assim que o atual governo vê o papel dos militares em sua estrutura?
Santos Cruz – Eu não vou comentar a postura de ninguém em particular. A minha postagem foi para mostrar que hierarquia e disciplina são princípios de estrutura e valores que nada tem a ver com submissão e nem podem ser reduzidos a uma relação de mandar e obedecer.

O general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, também sofreu ataques recentes da chamada “ala ideóloga”, em uma briga com o ministro Ricardo Salles. Vê alguma semelhança no processo que culminou com a sua saída do governo?
Você participa de um governo ou deixa de participar de um governo, no nível ministerial, por decisão do Presidente. O convite ou a dispensa não tem nada de ilegal por parte do Presidente. A influência e a participação dele na ala ideológica, a milícia digital, o comportamento de seita, e todas as consequências, são problemas para o país. Além da triste epidemia do coronavírus, afetando as pessoas, as família e a economia, o Brasil tem mais duas doenças graves infecciosas: a corrupção e o fanatismo. Andam juntas.

O general Rêgo Barros escreveu um texto nesta quarta-feira, em que faz críticas ao governo, mesmo sem citar o presidente Jair Bolsonaro. O que o senhor achou da opinião do ex-porta-voz da Presidência?
Acho que, com base na experiência que ele teve, ele quis alertar sobre o comportamento de autoridades e seus assessores. A importância de não ser omisso, acomodado, ou boçal no exercício dessas funções.

Como o senhor vê esse momento da relação entre os membros das Forças Armadas que ocupam cargos no Executivo, a chamada “ala militar”, e o resto do governo? Vê alguma relação nas três situações citadas nas outras perguntas?
Eu não vejo “ala militar” e resto do governo. Não pode haver diferença de consideração entre civis e militares que ocupam funções públicas de nomeação. Se for essa discriminação, a instituição militar sai perdendo.