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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Satélite ‘cloroquina’ da Defesa não penetra abaixo de copa das árvores

Equipe BR Político

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O diretor do secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO) vinculado à ONU, Gilberto Câmara, membro sênior da Association for Computing Machinery (ACM) e doutor honoris causa pela Universidade de Muenster (Alemanha), levantou problemas técnicos do sistema de monitoramento por satélite que o Ministério da Defesa pretende contratar para o monitoramento da Amazônia, ao custo de R$ 145 milhões, ao repórter André Borges do Estadão. Segundo o cientista, a tecnologia defendida pelo ministério, conhecida como sistema de micro satélites da constelação Iceye, tem o efeito de uma “cloroquina espacial”. Como o próprio nome em inglês aponta, trata-se de um satélite para “olhar gelo”, já que foi desenvolvido na Finlândia. Ei-los:

  • Falta de transparência: “A única explicação possível é que os militares querem substituir o monitoramento do Inpe pelo do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e produzir um número cujos dados não serão transparentes para a sociedade”;
  • Cobertura com limitação técnica: “Basta dividir a largura da Amazônia, de 2.000 km, pela largura de faixa dele, 30 km por dia. Isso dá 66 dias. Ou seja, ele demora mais de dois meses para cobrir a Amazônia toda”;
  • Incapaz de penetrar abaixo da copa das árvores: A tecnologia Iceye não possui capacidade de distinguir com qualidade árvores altas de arbustos ou árvores cortadas, por exemplo. Além disso, por serem satélites mais leves, os equipamentos da Iceye têm um sistema de controle limitado, sem giroscópios. “Em consequência, o satélite não mantém a órbita fixa, mas viaja ao sabor do vento solar e do atrito. Isso acontece com todos os satélites de menos de 100 quilos”;
  • Falta de evidência científica para monitoramento de florestas tropicais: “Em resumo, não há qualquer evidência científica publicada na literatura que indique que satélites como Iceye possam monitorar desmatamento, ainda mais em tempo real. Não há justificativa técnica para a compra do sistema para monitorar a Amazonia”;
  • Satélites gratuitos para monitoramento da Amazônia, como o Sentinel-1 e 1A, da Europa: “As imagens são muito melhores que as do Iceye e mais úteis para monitorar o desmatamento. É um absurdo comprar um satélite que não serve para monitorar a Amazônia, considerando que já existem satélites SAR disponíveis gratuitamente”;
  • Orçamento zerado: A Agência Espacial Brasileira zerou o orçamento de pesquisa, desenvolvimento e capital humano do Inpe previsto para 2021.

Satélite mostra incêndios na Amazônia Foto: NASA Earth Observatory / AFP

Outro lado

Ministério da Defesa se defende:
“O processo licitatório ainda está em andamento e poderá estar concluído até o final deste ano, com previsão para entrar em operação até o final de 2021”.

“A tecnologia é capaz de enxergar o terreno, mesmo que ele esteja sob nuvens” e que, mesmo na época de fortes chuvas na Amazônia, que duram cerca de oito meses, o radar consegue melhor monitoramento. Segundo a pasta, “não haverá sobreposição de funções do Inpe, mas sim complementaridade”.

“Embora planejado para monitorar a região amazônica, o satélite terá a capacidade de ser empregado no monitoramento de outras regiões estratégicas do País. Como exemplo dessa aplicação, o equipamento poderá ser utilizado no monitoramento da Amazônia Azul, constituindo importante ferramenta ambiental durante eventos como as manchas de óleo detectadas no litoral brasileiro, em 2019”.

“A possível aquisição contribui também, diretamente, para a soberania espacial, cumprindo objetivos da Estratégia Nacional de Defesa, por meio do Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), que elencou diversas carências no segmento aeroespacial brasileiro, entre elas a ausência de um satélite com sensor radar operado pelo Brasil”