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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Secretário de Saúde do MS diz que Estado está em ‘sinal de alerta’

Cassia Miranda

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Apesar da situação de aparente conforto em relação aos números da covid-19 em comparação com outros Estados do Brasil, o secretário de Saúde do Mato Grosso do Sul, Geraldo Resende, afirma que o Estado está em alerta, já que o pico do contágio pelo novo coronavírus deve chegar entre junho e julho. Por enquanto, os focos de contaminação estão concentrados no interior, nas cidades de Dourados e Guia Lopes da Laguna, mas por causa do baixo índice de isolamento (cerca de 40%) registrado em Campo Grande, o secretário avisa: “Não podemos de forma alguma baixar a guarda, porque vai chegar também na capital”, disse Resende em alerta para o avanço da doença. Em entrevista ao BRP, o secretário falou ainda sobre a situação de contágio entre as comunidades indígenas, já que o Estado tem a segunda maior população de índios do País. Até a última sexta-feira, 29, 75 indígenas já haviam sido contaminados pela covid-19 no Estado.

Secretário de Saúde do Espírito Santo, Geraldo Resende. Foto: Edemir Rodrigues/Governo MS

Apesar de seguir na lanterna em número de casos confirmados e óbitos pela covid-19, nos últimos dias o número de infectados praticamente dobrou no Mato Grosso do Sul. A que se deve isso?

Geraldo Resende – A média de crescimento exponencial verificada nos últimos tempos nos fez acender o farol de alerta. Isso é resultante de dois surtos epidêmicos, localizados na região sudoeste envolvendo um frigorífico, que se expandiu para uma outra unidade na mesma região, e que agora se espalhou para uma unidade na região de Dourados, que tem apresentado um grau de contaminação bastante expressivo entre os colaboradores.

Chama atenção que os focos estão afastados da capital. Como isso ocorreu?

Em Guia Lopes da Laguna foi um caminhoneiro que contaminou os funcionários do frigorífico e dali o vírus se espalhou e contaminou todos os setores. O que levou a um outro frigorífico da mesma região, por meio da esposa de um dos funcionário contaminados que trabalhava em outra unidade de processamento de proteína. Em Dourados, a partir da detecção do primeiro caso – uma colaboradora indígena da unidade -, com monitoramento da cadeia de transmissibilidade se verificou que muitos dos colaboradores estavam contaminados. O que veio a mostrar que não era só entre os colaboradores indígenas de um só setor, havia colaboradores de vários outros setores e municípios já contaminados, já que a mão de obra vem dos municípios circunvizinhos à cidade de Dourados.

E quais medidas foram tomadas nessas cidades?

Nós fizemos tudo. Desde o primeiro caso detectado em Dourados e em Guia Lopes da Laguna. Colocamos todas as nossas equipes e o apoio de todo o Estado, inclusive com equipes de outras secretarias, para fazer trabalho junto com a vigilância de saúde. O município de Guia Lopes tomou decisões que levaram a um lockdown parcial, ou seja, um isolamento social mais radical na cidade, que ainda está em vigência. Todas as estruturas do Estado, principalmente a secretaria de Justiça e Segurança Pública, estão colocando efetivos para as barreiras sanitárias instaladas na cidade e também para que as medidas restritivas sejam cumpridas pela população. Haja visto que hábitos culturais muito arraigados na região continuavam a ser feitos, principalmente o hábito do tereré – bebida à base de erva-mate, servida com água gelada, com compartilhamento da cuia e da bomba. Nessa região há muitas pessoas de origem paraguaia, por isso esse hábito foi tão incorporado no Estado. Eles, apesar de serem orientados, não estavam levando adiante as medidas sanitárias recomendadas. Então foi importante o efetivo das forças de segurança do Estado para fazer cumprir não só a quarentena, mas também dar ajuda ao monitoramento dessas pessoas.

Na capital as medidas estão sendo melhor seguidas?

Não, nós temos um grau de isolamento muito pequeno. Infelizmente a nossa gente do Estado, culturalmente, é muito refratária a seguir as orientações das autoridades sanitárias. Aqui no Mato Grosso do Sul, uma parte substancial da população às vezes segue orientações que não da autoridade sanitária, segue outras autoridades nacionais, o que dificulta o nosso trabalho. Infelizmente, o Mato Grosso do Sul, como todo mundo sabe, é um Estado muito conservador onde parte da população que seguir outras orientações, dificultando o nosso trabalho. Mas nós não podemos de forma alguma baixar a guarda, porque vai chegar também na capital.

O Mato Grosso do Sul tem a 3ª maior taxa de contaminação do País. Qual o plano para baixar esse índice?

Nós estamos em alerta, detectamos esses surtos nessas duas regiões, a taxa de contaminação no Estado é muito alta, como você disse, por isso estamos fazendo testagem em massa nos municípios para tentar conter os surtos. Já fizemos mais de 10.554 testes, o que é expressivo em uma população do tamanho da nossa, também temos 80 mil testes convencionais (RT-PCR), que já estão sendo utilizados. O sistema drive-thru de testagem tem funcionando ele foi pioneiro no País. Eles estão nos dando porcentual muito significativo de positivos. A partir de semana que vem nós vamos fazer o teste rápido nos drive-thrus localizados nos municípios de Dourados, Campo Grande, Três Lagoas e Corumbá. Mas, com certeza, hoje, a nossa grande preocupação é essa taxa de contágio que ainda está superando em duas vezes a média nacional. A meta que nós queremos alcançar é de um para um, cada caso confirmado contagia no máximo mais um paciente. Por enquanto, aqui, a cada 10 pessoas, 38 são contaminadas.

O Estado tem leito de UTI suficiente para dar conta desse nível de contaminação?

Tínhamos cerca de 500 leitos de UTI entre públicos e privados. A nossa tarefa foi tentar disponibilizar parte desses leitos para pacientes da covid e construir um apoio em todos os municípios sede de regiões e microrregiões de saúde para elevar, no mínimo, em 40% o número de leitos disponíveis. Conseguimos avançar em 214 leitos a mais, o que nos dá uma certa segurança no Estado. Conseguimos vencer um desafio que era enorme e colocamos leitos nas 11 microrregiões do Estado.

Há um avanço de contaminação sobre as comunidades indígenas, que costumam ser mais frágeis às doenças. O que tem sido feito para proteger a população indígena espalhada pelo Estado?

Desde o primeiro instante, a nossa maior preocupação foi com a população mais vulnerável, nós temos a segunda maior população indígena do País, cerca de 80 mil índios entre aldeiados e desaldeiados. Temos cidades, como Dourados onde está a maior reserva indígena do País, com mais de 18 mil indígenas, onde há duas aldeias periurbanas, muito próximas a bairros da periferia de Dourados. Lá, através de uma ação feita pela secretaria de Estado de Saúde detectamos esse primeiro caso da indígena funcionária do frigorífico. A partir dali, fizemos todo o monitoramento dos contatos residenciais, eram 12 pessoas na mesma moradia – as moradias lá são bastante precárias – e as pessoas com quem ele teve contato no ir e vir da empresa e no setor dela. Logo depois, com a testagem, comprovamos que havia uma contaminação muito forte lá em Dourados, que hoje já nos apresenta o número de 73 indígenas contaminados. No total, no Estado, nós temos 75.

O Mato Grosso do Sul tinha um diálogo muito bom com o Ministério da Saúde sob a gestão do ministro Luiz Henrique Mandetta. Como ficou essa relação após a saída dele?

O ministro Mandetta é do Estado conhece a nossa realidade. Temos contato, ele sempre está presente no Estado e quando podemos conversar a gente, conversa. Nós temos nos encontrado muito rapidamente e ele tem elogiado o trabalho feito no Estado. Mas não temos nenhum trabalho formal juntos, até porque ele tem o impedimento, a quarentena que todo servidor público tem de ter quando deixa um cargo, ainda mais esse da envergadura que ele ocupava. Mas ele foi sempre um parceiro e nós estamos aguardando que essa mesa parceria se dê com o atual ministro-interino, general (Eduardo) Pazuello.

Mandetta atua como um parceiro informal do Estado depois da saída do ministério?

Logicamente que nós sempre nos aconselhamos quando ele era ministro. Depois que deixou de ser, as conversas com ele ocorrem em encontros esporádicos. Ele tem sempre nos alertado que precisamos estar preparados já que ainda o pico da covid-19 está por vir. Deverá ocorrer entre os meses de junho e julho, já que o Estado do Mato Grosso do Sul deverá a ser um dos últimos lugares onde vai ocorrer o crescimento exponencial da doença.