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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

‘A não compreensão do Sínodo leva à desconfiança’, diz presidente da CNBB

Cassia Miranda

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Apesar de o Sínodo para a Amazônia estar sob a mira do Planalto desde o início do mandato do presidente Jair Bolsonaro, tanto o governo quanto os bispos que se reúnem no Vaticano, a partir do próximo domingo, 6,  pregam a defesa da soberania brasileira. Até 27 de outubro, mais de 250 bispos de todo o mundo vão se reunir com o papa Francisco para discutir “novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

O presidente da CNBB, d. Walmor Oliveira de Azevêdo

Para o presidente da CNBB, d. Walmor Oliveira de Azevêdo, há muitos “equívocos” circulando sobre o Sínodo para a Amazônia. Foto: Washington Alves/Estadão

Em entrevista ao BRPolítico, o presidente da CNBB, d. Walmor Oliveira de Azevêdo, afirma que é um equivoco pensar que com a realização do Sínodo, a Igreja está se posicionando contra governos ou ameaçando a soberania dos países que compartilham a floresta. Segundo ele, a falta de compreensão sobre os objetivos do evento é que leva à desconfiança por parte de setores da sociedade, entre eles, o governo. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Há desinformação circulando sobre o Sínodo?

Alguns equívocos. O mais grave, talvez, é quando disseminam que a Igreja coloca-se contra governos ou ameaça a soberania de países. São graves inverdades, propagadas por quem não concorda com o magistério do papa Francisco e se apega mais a uma ideologia. A Igreja, com a sua presença missionária, está junto aos povos tradicionais da Amazônia há séculos, denunciando injustiças, ao lado dos mais pobres. Há mártires que entregaram suas vidas por levantar a voz e denunciar a exploração desmedida dos povos e dos recursos naturais da Amazônia. Nessa longa trajetória, de muitos trabalhos, a Igreja sempre respeitou as autoridades instituídas, os marcos legais, a autonomia das nações. Ao mesmo tempo, nunca abriu mão de sua missão irrenunciável de anunciar o evangelho. Isso significa estar ao lado dos mais pobres. Auxiliá-los na busca por uma vida digna. Outro erro grave: entender que o Instrumentum Laboris (documento de trabalho) do Sínodo para a Amazônia é o resultado do próprio Sínodo. O Instrumentum Laboris é fruto de um amplo exercício de escuta da Igreja em toda a região amazônica. Milhares de pessoas foram ouvidas na rede de comunidades que abrange todo o território amazônico. Ali, no Instrumentum Laboris, estão as vozes da Amazônia, que serão levadas para o Sínodo, auxiliando os bispos participantes a contribuírem com o magistério do papa Francisco.

O governo trata o Sínodo é uma espécie de retaliação a atual política ambiental adotada no País, mas o anúncio da realização do evento foi feita lá em 2017… Falta compreensão sobre o evento?

Há segmentos da sociedade que não compreendem o Sínodo e a própria missão da Igreja Católica, que é a de semear a paz, a fraternidade e a justiça. A não compreensão leva à desconfiança. Diante dessa realidade, a Igreja apresenta, com clareza e honestidade, os seus objetivos com a realização do Sínodo para a Amazônia. A urgência primeira é evangelizar. Mas é preciso reconhecer, imediatamente, que a defesa da casa comum é caminho para evitar um colapso. O papa Francisco e a maior parte da comunidade científica fazem uma advertência: se não houver mudanças no comportamento da humanidade as condições de vida no planeta estarão gravemente ameaçadas.

Como a Igreja recebe essa espécie de cruzada do governo em relação ao Sínodo?

O caminho do diálogo, trilhado pela Igreja, é a via mais adequada para vencer as barreiras. Dialogando, temos avançado em entendimentos e, por isso, prefiro não generalizar. Muitos já se convenceram do objetivo e da importância do Sínodo, diante da necessidade fundamental que é anunciar o evangelho da vida no coração da Amazônia. É dever nosso escutar quem nos procura com perspectivas discordantes. Um exercício importante para amadurecer discernimentos. Mas é preciso haver, sempre, respeito. As divergências são naturais em toda a sociedade. Possibilitam amadurecimentos. Respeitamos os representantes do poder público que não concordam com o Sínodo, escutamos, mas exigimos também a reciprocidade. A sociedade se fortalece quando pontos de vista divergentes convivem bem, nos parâmetros da civilidade.

Que tipo de medidas concretas podem ser esperadas na defesa da floresta?

A partir do respeito à soberania dos países e em sintonia com as necessidades dos povos amazônicos a Igreja fortalecerá a sua ação missionária, anunciando o evangelho de modo ainda mais revigorado. A partir do Sínodo para a Amazônia, a Igreja quer contribuir para que o mundo também aprenda com os povos tradicionais, habitantes da floresta, que têm muito a ensinar sobre modos de lidar com os recursos da natureza.

Como a Igreja Católica tem atuado na região?

A Igreja, historicamente, tem sido voz que defende os excluídos da Amazônia. O Sínodo para a Amazônia, fruto da escuta dos povos que habitam aquela região, só se torna possível graças a essa presença amadurecida da Igreja, que se organiza em redes de comunidades. Podemos, assim, dizer que o Sínodo é um passo novo, importante, nesse caminho que vem sendo trilhado há muito tempo por muitos evangelizadores – bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas, fiéis, leigos e leigas. As próximas etapas dessa trajetória serão enxergadas a partir do Sínodo e, evidentemente, das orientações do papa Francisco, sempre sensível às necessidades da igreja e do mundo.

Como tem sido a reação dos fiéis à realização do Sínodo e à política ambiental do governo?

A Igreja Católica defende que todos os fiéis se envolvam com a política, debatendo, refletindo, com autonomia, para escolher seus candidatos e partidos. Há, pois, entre os católicos, diferentes perspectivas sobre o governo e suas decisões. Todas merecem respeito e consideração. A respeito do Sínodo, temos recebido amplo apoio, não somente no contexto de nossas comunidades de fé, mas também de outras pessoas, de diferentes confissões religiosas e segmentos da sociedade. Há, porém, os que atacam o Sínodo, se valendo, inclusive, da agressividade. Nas redes sociais, investem no tom bélico, atentando contra pessoas. Em situações mais graves, a igreja interpela judicialmente os caluniadores. De um modo geral, a esses indivíduos são oferecidos esclarecimento e orientação, pois uma sociedade fraterna não se constrói a partir de revides.