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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Tombo na economia transforma agenda pós-pandemia em desafio

Marcelo de Moraes

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A queda de 1,5% do PIB no primeiro trimestre e o forte aumento no número de desempregados no País surpreenderam negativamente o governo. Havia um consenso que esses números seriam ruins por causa das primeiras contabilizações do desastre provocado pelo novo coronavírus. O que não se esperava era que fossem tão decepcionantes.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante a reunião do governo de 22 de abril

O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante a reunião do governo de 22 de abril Foto: Marcos Corrêa/PR

Mesmo sabendo que os dados não seriam bons, havia a expectativa de alguma solidez, pelo menos, em relação ao crescimento econômico relativo a janeiro e fevereiro, quando a pandemia ainda não tinha se espalhado. Mas isso não acabou acontecendo. E o drama é que os próximos indicadores já vão apontar todo o impacto causado pela doença.

Para o governo, o prejuízo é duplo. Além da queda violenta da atividade econômica, também cai por terra o discurso otimista do ministro da Economia, Paulo Guedes, que afirmava que o Brasil estava voando antes da pandemia. Não estava. E isso fica claro quando se nota que apenas um sexto do primeiro trimestre foi, de fato, afetado pelo coronavírus. Antes disso, se a economia estivesse, realmente, voando, o resultado teria de ser melhor do que foi.

Bolsonaro já estava falindo nosso país mesmo antes da pandemia. Com esses resultados catastróficos já podemos dizer que ele não tinha plano antes, não tem durante e não terá depois da crise. O Brasil não sobreviverá se Bolsonaro continuar no poder”, critica o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O PSDB, que vinha poupando Paulo Guedes de críticas, usou seu perfil no Twitter para baixar o sarrafo no seu trabalho à frente do ministério, ressaltando, justamente o fato de a economia já não estar crescendo antes da pandemia.

“Cadê a decolagem do PIB antes da pandemia? O PIB do primeiro trimestre apenas confirma o que já se sabia: em nenhum momento de seu mandato até agora, o presidente Jair Bolsonaro foi capaz de fazer a economia brasileira voltar a crescer. A queda de 1,5% entre janeiro e março, revelada pelo IBGE, joga por terra a narrativa, recorrente, do ministro Paulo Guedes, segundo a qual a pandemia do novo coronavírus interceptou a decolagem da economia do Brasil. Retórica vazia, resultados pífios, como se vê”, diz a postagem dos tucanos.

E, para agravar o quadro, já se sabe que o PIB do próximo trimestre será muito pior, pois pegará em cheio toda a paralisação das atividades econômicas, uma vez que contabiliza os meses de abril, maio e junho.

A própria Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia (SPE) reconhece isso em nota. “O resultado negativo da atividade econômica no primeiro trimestre, embora esperado, lamentavelmente coloca fim à recuperação econômica em curso desde o começo de 2017. Os impactos iniciais da pandemia na economia, a partir de março deste ano, reverteram os bons indicadores de emprego, arrecadação e atividade do primeiro bimestre, levando a variação do PIB para o terreno negativo. Os efeitos danosos sobre a saúde da população brasileira e da nossa economia ainda persistem. Dessa forma, o resultado econômico da atividade no segundo trimestre será ainda pior”.

Com as piores expectativas possíveis, resta fazer as contas da tragédia anunciada. E as previsões, em média, já apontam que o PIB do segundo trimestre poderá ter uma queda de dois dígitos. “A gente vai ver números e variações trimestrais que nunca existiram”, constata o economista-chefe no Brasil do banco suíço UBS, Tony Volpon, que já foi diretor do Banco Central.

Com isso, a equipe econômica resolveu reagir defendendo uma agenda de propostas para tentar retomar a trilha do crescimento em algum ponto deste ano, se for possível. Porque nem essa perspectiva é garantida. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por exemplo, não descarta que os efeitos da pandemia sobre a economia durem até 2021. Ele lembra que a reabertura das atividades econômicas não se significa que as pessoas “vão retomar velhos hábitos imediatamente”.

Uma das questões é que a agenda defendida pelo governo é a mesma de sempre. Mas alguns problemas de origem permanecem. A SPE anunciou uma série de medidas necessárias para o pós-pandemia e nelas estão incluídas as reformas. Mas, como bem lembra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), até hoje o Congresso não recebeu a proposta do governo em relação às reformas tributária e administrativa. Maia ressalta que, antes da pandemia, essas propostas tinham um conteúdo que, agora, precisará ser alterado diante de uma nova realidade pós-coronavírus.

Agenda pós-pandemia

No documento da SPE, a agenda pós-pandemia inclui:
– Fortalecer o arcabouço de proteção social transferindo recursos de programas ineficientes para programas sociais de comprovada eficiência no combate à pobreza;
– Melhorar a eficiência das políticas de emprego;
– Aprimorar a legislação de falências;
– Fortalecer e desburocratizar o mercado de crédito, de capitais e de garantias;
– Aprovar o novo marco regulatório do setor de saneamento básico;
– Aprovar o novo marco regulatório do setor de gás;
– Abertura comercial;
– Privatizações e concessões;
– Reforma tributária;
– Toda agenda de reformas pró-mercado já elencada em documentos anteriores tais como a desburocratização, facilidade para abrir empresas e empreender, facilidade de adoção de novas tecnologias, etc..

Dentro desse pacote de debates também está incluída uma discussão que é desconfortável dentro do governo. A prorrogação do auxílio emergencial é vista como inevitável por conta do problema social causado pelo aumento do desemprego. Mas Planalto e equipe econômica querem que isso dure o mínimo possível e ao menor custo. Ontem, o presidente confirmou que já está acertado com o ministro da Economia, Paulo Guedes, o pagamento de uma quarta e quinta parcela do auxílio emergencial. O valor, no entanto, será reduzido. “Vai ser menor do que os R$ 600 para ir partindo para um fim”, afirmou Bolsonaro.

Politicamente, o abalo no pilar econômico do governo é outro preço muito alto a ser pago pelo presidente Bolsonaro. Ele já percebeu que, antes mesmo de completar o primeiro ano e meio decisão sua administração é da crise econômica que pode vir o abalo irreversível de sua imagem junto aos eleitores. É claro que, num momento em que o coronavírus segue se espalhando, a crise política aumentando, impulsionada pelos próprios bolsonaristas, e a administração de Jair Bolsonaro piorando de avaliação nas pesquisas, o conjunto da obra acaba virando um problema muito sério. E tudo isso fragiliza ainda mais o governo exatamente quando vai precisar discutir com o Congresso essa agenda pós-pandemia em busca da retomada econômica.