Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Toneladas de mercúrio ilegal ameaçam a saúde da população da Amazônia

Equipe BR Político

Exclusivo para assinantes

Em média, 130 toneladas de mercúrio são despejadas ilegalmente todos os anos na Amazônia, de acordo com a organização World Wide Fund for Nature (WWF). Com a venda controlada do elemento tóxico no Brasil, toneladas chegam de forma ilegal aos garimpos localizados na floresta, movimentando bilhões de reais pelo crime organizado. O Fantástico participou de uma investigação internacional para mapear os caminhos do contrabando. O Brasil é um dos 127 países signatários de convenção da ONU que restringe o uso do elemento químico danoso à saúde humana. O produto compromete a saúde de toda a população que hoje vive no bioma. Uma peça de 1 kg de mercúrio, chamado de azougue, custa cerca de R$ 1.100, em Porto Velho.

Sobrevoo do Greenpeace em maio mostra garimpo avançando sobre Terra Indígena Munduruku Foto: Marcos Amend / Greenpeace

O elemento é utilizado pelos garimpeiros para separar o ouro, a despeito de haver técnicas de extração do metal sem a utilização do mercúrio. Segundo a investigação, o produto tóxico entra ilegalmente no Brasil por dois países: a Guiana e a Bolívia. O elemento sai de Georgetown, capital da Guiana, único país da América do Sul que importa o produto sem restrições, e entra por Bonfim, em Roraima. Após chegar em Bonfim, o mercúrio ilegal para na terra indígena yanomami, onde houve “uma disparada” no número de garimpos ilegais nos últimos anos, diz a reportagem. Pela Bolívia, o elemento entra por Guajará-Mirim, Rondônia.

‘Conversa de besta’

Na região de Itaituba, no Pará, estima-se que haja mais de 60 mil garimpeiros. As terras são ocupadas pelo povo munduruku, na região de Jacareacanga. Segundo o prefeito da cidade, Valmir Climaco de Aguiar (MDB), há cerca de 300 garimpos na área, sendo que só entre 80 a 100 são legalizados. O resto seria ilegal.

Na aldeia mais próxima do garimpo de Itaituba, 87% dos índios apresentaram índices de mercúrio no organismo em quantidades superiores às recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, segundo a Fiocruz. Climaco diz que a presença comprovada de mercúrio nos peixes da região do Pará, por exemplo, é “conversa de besta” porque ele nunca conseguiu ver o material no “bucho” do peixe. A substância tóxica, que não é perceptível a olho nu nos músculos dos peixes, compromete não só a saúde de quem já veio ao mundo, mas também de fetos na barriga das gestantes. Uma das empresas citadas na reportagem e investigadas é a Boi na Brasa, que teve retroescavadeira queimada durante operação contra o garimpo ilegal na região no início de agosto. Segundo a polícia, há índios que facilitam a entrada de garimpeiros ilegais no local em troca de uma pequena porcentagem na venda do ouro.

Operação suspeita

A operação do Grupo Especializado de Fiscalização (GEF) do Ibama contra o garimpo que estava sendo realizada na terra indígena foi suspensa no começo de agosto pelo Ministério da Defesa em decorrência da pressão dos garimpeiros contra a queimada de equipamentos de extração de ouro prevista em legislação ambiental. Eles fizeram um protesto no dia em que o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) visitou a região para acompanhar a operação. O fracasso da operação se deu especialmente pelo vazamento da informação de que o Ibama estaria em ação de fiscalização no local. O vazamento foi confirmado por um indígena garimpeiro, que não vive na terra indígena e não representa os munduruku, ao consórcio de veículos. A fonte dele seria alguém “de dentro do governo federal”.

Para se ter uma ideia da expansão do garimpo sobre as terras dos munduruku, a atividade ocupava uma área de oito hectares em janeiro deste ano, mas em agosto, foi ampliada para 362 hectares. Mesmo depois da operação, um novo porto foi aberto para escoar melhor o produto, confirmando, mais uma vez, o fracasso da operação e expondo o descalabro do desmonte da estrutura de fiscalização do Ibama.

Ao ser perguntada pelo Estadão, a pasta respondeu dizendo que a suspensão se deu “para avaliação de resultados, atendendo à solicitação dos indígenas”. De acordo com o ministério, “a suspensão buscou permitir o deslocamento de representantes dos indígenas para Brasília, em aeronave da C-95 da Força Aérea Brasileira, para realização de encontro no Ministério do Meio Ambiente (MMA), onde puderam apresentar seus pleitos e preocupações”. Os líderes indígenas contestam essa versão pelas evidências, mostradas pela reportagem, de que o avião do governo deu carona para garimpeiros ilegais até a capital.

Um dia depois de suspender as atividades, a Defesa informou que a operação seria retomada, mas “no âmbito da Operação Verde Brasil 2”, liderada pelos militares. As ações são coordenadas pelo Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão.