Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Transmissão das chaves da Cinemateca ao governo traz alto risco, alerta cineasta

Alexandra Martins

Exclusivo para assinantes

A Secretaria Especial de Cultura tem previsto recolher as chaves da Cinemateca Brasileira nesta sexta, 7, em São Paulo, quatro dias após a Justiça negar liminar a favor do maior centro de referência do audiovisual brasileiro. O pedido do Ministério Público Federal em São Paulo era para que a União renovasse o contrato de gestão do espaço com a Associação Roquette Pinto (Acerp). A juíza Ana Lúcia Petri Betto, da 1.ª Vara Cível Federal de São Paulo considerou não haver urgência na decisão, quando a realidade escancara atraso nos salários dos funcionários, contas de luz vencidas, falta de contrato de vigilância e de uma brigada anti-incêndio.

A Procuradoria postulava a renovação emergencial do contrato de gestão, “pelo período (transitório) de um ano, a contar (retroativamente) de 01.01.2020, com o consequente repasse orçamentário que originariamente já estava previsto e alocado para a execução do contrato de gestão da Cinemateca Brasileira para o ano de 2020, no valor de R$ 12.266.969,00, em favor da ACERP”.

Para o cineasta Roberto Gervitz, a juíza desconhece o fato de que o governo federal não tomou qualquer providência para remediar a calamidade que ameaça o acervo do Cinema Novo brasileiro, das chanchadas da Atlântida, dos filmes de Humberto Mauro, da Vera Cruz, dos cinejornais, da TV Tupi e tantos outros materiais que compõem a memória do audiovisual brasileiro tão utilizada em pesquisas pelos cineastas do País. “A juíza se baseou nas portarias que o governo emitiu. Ocorre que o governo emitiu as portarias e não tomou nenhuma providencia. É uma desinformação da juíza”, apontou.

Gervitz também alerta para a possibilidade de a transmissão das chaves ser acompanhada da dispensa dos funcionários do local. “Essa transmissão das chaves é um momento de alto risco para a Cinemateca caso eles removam os funcionários. A gente não sabe o que o governo vai fazer com eles, que são especializados, que não se acham em qualquer esquina. Eles vão ter que encontrar uma solução para deixá-los trabalhando lá. Retirar os funcionários de lá equivale, para mim, a incendiar a Cinemateca”, disse o diretor de Feliz Ano Velho e Jogo Subterrâneo.

A entrega das chaves virá acompanhada de uma documentação que o Ministério do Turismo pretende fazer amanhã nas dependências da Cinemateca. “Eles querem fotografar para não serem culpados eventualmente de algum problema preexistente”, diz Gervitz, que estará presente no ato. Na semana que vem, o setor fará um novo protesto contra o desmanche da Cinemateca.

Tudo o que sabemos sobre:

CinematecaRoberto GervitzCháves