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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Trípoli: ‘Maioria da população está buscando bom senso e equilíbrio’

Marcelo de Moraes

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Um dos principais articuladores políticos do PSDB, o ex-deputado federal Ricardo Trípoli acredita que o eleitor deverá mostrar na próxima votação municipal que se saturou do clima agressivo de direita e de esquerda mostrado nas duas últimas disputas presidenciais. Secretário-executivo de Relações Federativas da Prefeitura de São Paulo, Trípoli será um dos coordenadores políticos da campanha pela reeleição de Bruno Covas e disse ao BRP que o PSDB seguirá apoiando os projetos que são importantes para o Brasil, como as reformas. Mas que os tucanos farão questão de deixar claras suas críticas ao governo de Jair Bolsonaro. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Ex-deputado federal Ricardo Trípoli, que será um dos coordenadores políticos da campanha pela reeleição de Bruno Covas

Ex-deputado federal Ricardo Trípoli, que será um dos coordenadores políticos da campanha pela reeleição de Bruno Covas. Foto: Clayton de Souza/Estadão

BRP – O senhor e outros tucanos importantes têm assumido, nos últimos tempos, um discurso bem mais crítico em relação ao governo Bolsonaro…

Ricardo Trípoli – “As duas últimas campanhas presidenciais foram muito agressivas. Tanto na extrema esquerda quanto na extrema direita. E o público confiou nesses candidatos. Tanto na primeira, em 2014, que era de extrema esquerda agressiva, raivosa, pessoal, quanto na segunda, no ano passado, quando demonstrou exatamente a mesma coisa, só que na direita. Só que agora, depois da posse, virou algo que a gente jamais imaginaria, que é uma agressão de ordem pessoal. Eu chamo a atenção sobre o presidente Bolsonaro. Eu tive a oportunidade de conviver 12 anos com ele na Câmara Federal. Uma coisa que eu percebi outro dia é que nesse período de mais de vinte anos em que foi deputado federal, ele nunca ocupou na sua bancada, que tinha mais de 40 integrantes, nenhum cargo. Nunca presidiu uma comissão, nunca foi relator de um projeto importante. Nunca foi membro da Mesa e nunca foi líder de bancada. O que demonstra que os próprios colegas dele não confiavam na figura do presidente. Isso é muito ruim. E o presidente precisa entender a separação da figura física da pessoa jurídica. Hoje, ele é o presidente da República. Ele não fala por ele, Bolsonaro, ex-deputado federal, ex-capitão do Exército. Ele fala como presidente, em nome de mais 220 milhões de brasileiros. Isso é uma preocupação muito grande que eu tenho”.

BRP – O senhor acha que os eleitores têm essa avaliação?

Trípoli – “Acredito que vamos ter pela frente, nas eleições, cerca de 15% de agressividade de esquerda e 15% de agressividade de direita. Acho que os 70% restantes da população estão buscando algo em torno do bom senso, do equilíbrio. O Brasil precisa ter duas coisas: segurança jurídica e credibilidade financeira. Com essas duas questões resolvidas, o Brasil volta a crescer, cai o desemprego, volta a gerar renda. Agora, precisa fazer isso de uma forma correta. Não do jeito que está sendo feito”.

BRP – O senhor acha que as polêmicas provocadas por integrantes do governo podem contaminar o sucesso da pauta econômica no Congresso?

Trípoli – “Antigamente, o Congresso, pela diversidade que representavam 513 deputados e 81 senadores, sempre tinha um desarranjo. E o Executivo sempre trabalhou no sentido de colaborar para que houvesse um entendimento. Hoje é o inverso. Agora, é o Congresso arrumando e o Executivo atrapalhando. Quando digo o Executivo, eu digo o presidente. Ele tem ótimos ministros mas, infelizmente, eles não conseguem caminhar porque a questão política, imposta pelo presidente da República, faz com que haja um recuo”.

BRP – O senhor teme que investidores evitem o Brasil por causa dessa situação?

Trípoli – “Há um receio. Acho que quando o presidente começa a fustigar chefes de Estado de outros países, isso pode gerar um clima. E o brasileiro não tem interesse que o capital fuja daqui. Muito pelo contrário. Queremos que o capital venha para cá. Essa é a vontade do brasileiro. Agora, da maneira como está sendo feito, eu não sei qual é a fórmula que o presidente vem pensando em usar para que isso não ocorra”.

BRP – Na eleição municipal em São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) vai tentar a reeleição tendo de enfrentar, provavelmente, como principais adversários algum candidato bolsonarista e algum nome da esquerda. Como o senhor vê esse cenário?

Trípoli – “Nós somos sociais-democratas. Temos uma ideia de desenvolvimento, eu diria que liberal, para fazer com que a cidade de São Paulo cresça. Temos mais de 12 milhões de habitantes na cidade e o terceiro maior orçamento do País. O que os paulistanos, os paulistas e os brasileiros que vivem na cidade de São Paulo querem? Querem tranquilidade. Querem que seja gerada maior segurança e isso está sendo feito. Uma boa zeladoria, que é algo que o prefeito Bruno Covas vem se empenhando muito para fazer. Só na Operação Asfalto, o prefeito aumentou os recursos de R$ 500 milhões para R$ 1,5 bilhão. Um investimento maciço. A Prefeitura é zeladoria. E vamos buscar aquilo que a população quer. Alguém que tenha equilíbrio, sensatez e que possa administrar a cidade sem ódio. E isso o Bruno Covas vem fazendo com muito talento”.

BRP – Em alguns momentos, o PSDB se aproximou da campanha de Bolsonaro e do seu governo. Isso não pode fazer com que o eleitor não perceba essa diferença que o senhor está falando?

Trípoli – “Não temos essa preocupação. Aquilo que for bom para a população, sem ser demagógico, vamos apoiar. A reforma trabalhista foi feita no governo do Michel Temer. Durante o mesmo governo, nós do PSDB pedimos a admissibilidade da investigação sobre ele. Se tiver posições que sejam importantes para o País voltar a crescer, independentemente da questão política-econômica, nós não vamos torcer para um Brasil pior. Vamos torcer sempre para um Brasil melhor. Há um entendimento institucional da Prefeitura de São Paulo, com o Bruno Covas, e do governo de São Paulo, com o João Doria, no que diz respeito às questões institucionais. Não vamos entrar numa discussão menor porque o brasileiro não quer isso”.

BRP – O senhor acha que a campanha municipal pode ser nacionalizada? Ou seja, a discussão política nacional pode refletir nas eleições do próximo ano?

Trípoli – “Vamos trabalhar em função do que é importante para a cidade de São Paulo. Nossa agenda vai ser a capital. Não temos nenhum interesse em levar a campanha para uma agenda nacional. Até porque a população quer saber como está a questão dos ônibus, se a rua está asfaltada, se a coleta de lixo é boa, se a iluminação está funcionando, se tem vaga na creche. Não vamos desviar desse foco para entrar num debate chulo, de baixo nível. O eleitor, geralmente, compara gestões. E estamos preparados para isso. Hoje, a proposta é governar a cidade. E mostrar capacidade exibido o que foi feito”.