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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Vestígios pré-históricos milenares são ‘tratorados’ no Acre para plantar milho

Alexandra Martins

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A notícia é sobre o recente aterro dos vestígios pré-históricos para dar lugar à lavoura de milho na Fazenda Crixá II, do fazendeiro Assuero Veronez, presidente da Federação da Agricultura e Agropecuária do Acre (Feac), no Acre. Ele alega que foi ação de um funcionário à sua revelia. O Ministério Público Federal do Acre já abriu investigação para apurar o dano ao patrimônio arqueológico da União. Para se ter a dimensão histórica da “tratorada”, é preciso conhecer a face arqueológica da Amazônia, ampliando o entendimento de que a maior floresta tropical do mundo não é “apenas” um acervo vegetal, mas civilizatório. Daí a importância dos povos indígenas que viveram e vivem hoje na região.

A região amazônica abriga vestígios pré-históricos de populações que viveram na área entre 800 e 2500 anos atrás. Um deles são as misteriosas figuras desenhadas em grandes áreas do solo presentes no oeste da Amazônia pré-colombiana conhecidas como geoglifos, os mesmos aterrados na fazenda de Veronez. Alguns têm centenas de metros de diâmetro, e só podem ser vistos completamente a partir de aviões ou satélites. O mais provável é que eles só eram utilizados ocasionalmente, com objetivos rituais, e não que tivessem finalidade defensiva, de acordo com estudo de um grupo de cientistas britânicos e brasileiros que analisaram a área de dois geoglifos localizados a leste de Rio Branco, no Acre. Além dos geoglifos, os vestígios incluem vilarejos, fortificações, cerâmicas e machados de pedra polida.

Floresta manipulada

A pesquisa mostra ainda que a biodiversidade de algumas partes da floresta atual pode ser um legado de antigas “práticas agroflorestais”. “As florestas que estão lá hoje em dia têm pelo menos 6 mil anos. Mas a partir de 4 mil anos atrás, elas começaram a ser alteradas para favorecer as plantas úteis. Isso é uma evidência de que a biodiversidade atual foi produzida por essas populações”, já disse a pesquisadora Jennifer Watling ao Estadão. Ou seja, o homem pré-histórico, ou os cientistas da época, que vivia na região já manipulava o acervo vegetal da região, mostrando que a Amazônia não era como é hoje, bem como buscava alternativas sustentáveis do uso do solo.

Os cientistas do estudo estimam que na região podem ter existido de mil a 1500 vilarejos nessa região – nas vizinhanças ou no interior dos geoglifos -, onde viviam de 500 mil a 1 milhão de pessoas, maiores que muitos municípios hoje do País, sendo que algumas áreas abrigavam uma população de ao menos dezenas de milhares de pessoas.

Contemporâneos de Pitágoras

Veronez, no entanto, minimizou ao Estadão o estrago de sua lavoura sobre os geoglifos. “Entendo a importância do sítio arqueológico, embora tenha mais de 800 desses geoglifos na região onde está minha fazenda. Vamos mitigar ou reparar os danos causados, mas a impressão minha é que para efeito de pesquisas não há tanto prejuízo, pois a vala foi aterrada, mas os objetos que podem ser encontrados nas escavações ainda estão lá. Sob esse ponto de vista não há prejuízo”, disse ele.

O paleontólogo Alceu Ranzi, que há 20 anos estuda os geoglifos da Amazônia, considera “impossível” recuperar o sítio arqueológico destruído. “Cada um é único, como uma obra de arte”, disse. E segue: “Chama a atenção a monumentalidade e a perfeição geométrica. Esses homens da Amazônia dominavam a geometria ao mesmo tempo em que Pitágoras elaborava o seu teorema. A monumentalidade é tanta que estão registradas em imagens de satélites.” Segundo o cientista, há evidências de que sua construção se iniciou ao menos 1500 anos antes de Cristo e foram locais habitados até o ano de 1300.

Vestígios arqueológicos (geoglifos) produzidos pelo homem pré-histórico que viveu na região entre 800 e 2.500 anos, antes e depois da ‘tratorada’, na Fazenda Crixá II, do fazendeiro Assuero Veronez, no Acre

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