Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Vice de Lira avisa: ‘Se tem algo que não é importante agora é a pauta de costumes’

Gustavo Zucchi

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Na última terça-feira, Jair Bolsonaro, em um de seus discursos polêmicos, desta vez em visita a São Paulo, avisou que quer ver o excludente de ilicitude na pauta da Câmara dos Deputados. Isso se soma a outras das chamadas “pautas de costumes” que costumam figurar entre as prioridades do presidente da República. Mas Bolsonaro parece não ter combinado isso com seus próprios aliados. Candidato a vice na chapa de Arthur Lira (PP-AL), o deputado Marcelo Ramos (PL-AM) avisa que “se tem algo que não é importante” neste momento para o Brasil é a pauta de costumes, xodó do Planalto.

A “independência” em relação às idiossincrasias do Planalto são parte da estratégia do grupo para não afastar de vez a oposição, que dá sinais de que pode bandear em massa para o ainda desconhecido candidato de Rodrigo Maia (DEM-RJ). Em entrevista ao BRPolítico, Ramos reforça essa vontade de contar com os votos e com a participação da esquerda na mesa diretora. E ressalta as divisões internas de legendas oposicionistas que podem dar votos para Lira.

Ramos é candidato a primeiro vice-presidente na chapa de Arthur Lira. Foto: Dida Sampaio/Estadão

BRPolítico – Na semana passada vocês apresentaram um bloco com 160 deputados. Como está essa busca por mais votos para a eleição de fevereiro?
Marcelo Ramos – O grande desafio hoje é o desafio de consolidar os blocos partidários. Apresentamos um bloco com bastante representatividade e estamos na expectativa de confirmação de alguns partidos. O PSB, que é um partido que  a maioria dos deputados tem simpatia em compor conosco, mas que tem alguma restrição de sua direção. Nós vamos esperar a decisão deles. E também o PTB que nós temos uma conversa para consolidar a presença deles o nosso bloco.

No PSB, o próprio presidente da legenda tem dito que não vai compor com Lira por conta do apoio do Planalto a vocês…
Acho que primeiro nós temos que resgatar a primeira fala do presidente Carlos Siqueira, após a sinalização da reunião de bancada de que gostaria de apoiar o deputado Arthur Lira. A primeira fala dele foi uma fala que não indicava veto, e que até comparava a candidatura com a do deputado Aguinaldo [Ribeiro] como líder da maioria, indicando que ele seria líder da maioria do governo. Indicando que a sucessão na Câmara não tem relação com a sucessão presidencial, ou com a relação de forças do Presidente da República, mas sim com a necessidade dos partidos de ocuparem espaço representativo na mesa e nas comissões. Nós respeitamos o PSB e vamos esperar a decisão deles de forma autônoma. Mas queremos muito contar com o PSB no nosso bloco. Até porque entendemos que a presença de um partido de oposição é um instrumento fundamental para a contenção desse discurso de uma chapa submetida aos interesses do Planalto. Algo que não combina nem com as características do deputado Arthur Lira, nem com as minhas.

Essa sinalização também vale para outros partidos oposicionistas. Já há o indicativo de formação de um bloco de esquerda contra a candidatura de vocês.
Sim. A Câmara é plural e a mesa da Câmara tem de representar essa pluralidade. É importante que você consiga juntar todas as forças que atuam aqui dentro para a mesa. Hoje, o próprio presidente do PT do Rio, deputado [Washington] Quaquá, deu declarações de simpatia ao deputado Arthur. Claro que existe a questão política extra-Câmara, a questão política de partidos que precisam afirmar sua posição de oposição ao governo. Mas temos a habilidade necessária para deixar claro, da mesma forma que o presidente Rodrigo Maia foi eleito com apoio de Bolsonaro e não se submeteu aos caprichos dele, nós também não vamos nos submeter.

Nesta semana o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que, após a eleição na Câmara, gostaria de ver o excludente de ilicitude novamente na pauta. Isso e outros temas de “costumes”. Concordam?
Todos sabem que não tenho nenhuma simpatia pela pauta de costumes imposta ou sugerida por Bolsonaro. Ainda mais sobre essa questão do excludente de ilicitude. Nós estamos em um momento que o Brasil bate 180 mil mortes por coronavírus. Estamos com 700 mil micro e pequenas empresas falidas por conta da pandemia. O País perdeu de massa salarial algo como R$ 300 milhões. Se tem algo que não é importante agora é a pauta de costumes. Todos os nossos esforços devem estar concentrados no combate aos efeitos sanitários, econômicos e sociais da pandemia.

Isso vale para as vacinas? O presidente tem falado de modo crítico à vacinação e reforma que não tomará a vacina.
Precisamos salvar todos os brasileiros. Acho que o presidente Bolsonaro tem posições bastante heterodoxas em determinados temas. E eu sou crítico delas. Mas a simples presença minha na composição com o deputado Arthur Lira demonstra que não há nenhuma submissão aos interesses do Poder Legislativo com essa pauta de costumas, que não é a prioridade neste momento da vida do País.