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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Volpon: ‘A crise fiscal não acabou’

Marcelo de Moraes

Economista-chefe no Brasil do banco suíço UBS, o ex-diretor do Banco Central Tony Volpon admite a frustração com o baixo crescimento do Brasil nos nove primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro. Volpon admite que, logo depois da votação, havia uma grande expectativa que o fim da incerteza eleitoral e a aprovação das reformas pudessem garantir essa mudança de patamar da economia. Mas isso não acabou não acontecendo, numa conjuntura provocada por um ambiente externo hostil, mas também porque as incertezas não passaram depois do início do governo, impulsionadas pela sequência de polêmicas políticas.

Tony Volpon, economista-chefe no Brasil do banco suíço UBS e ex-diretor do Banco Central, no Senado Federal

Tony Volpon, economista-chefe no Brasil do banco suíço UBS e ex-diretor do Banco Central. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Mas, apesar disso, Volpon acha que o Brasil pode, pelo menos, comemorar os efeitos positivos de estar conseguindo realizar uma transição de um modelo econômico baseado no Estado para um modelo de mercado. “O Estado faliu”, diz. Mas o economista alerta que os problemas fiscais do País ainda precisam ser superados para que o crescimento seja impulsionado. Em entrevista ao BRPolítico, Volpon prevê crescimento do PIB de 0,8% para este ano e de 1,5% para 2020. A seguir, os principais trechos da entrevista.

BRP – Nove meses depois da posse do novo governo, o baixo crescimento é uma frustração?

Tony Volpon: Para ser bastante franco e sincero, acho que foi um erro que eu também cometi ao supor que a expectativa de um ajuste fiscal consistente, mais outras medidas ligadas à oferta da economia, e também a queda da incerteza eleitoral provocariam um efeito positivo na economia. A gente tinha essa ideia de que em 2018 a economia ficou muito instável por causa da incerteza eleitoral, pelo risco da volta do PT ao governo. Com o resultado da campanha, achamos que essa sensação de risco cairia e que isso teria efeito na economia. E também estava se esperando um ambiente externo mais positivo para esse ano.

BRP – O que mudou de lá para cá?

Volpon: Olhando nove meses para frente, acho que algumas coisas ficam mais claras. Primeiro, o ambiente externo não está nada positivo. Acho que é muito difícil você pegar uma frustração de expectativa e dizer olha 50% é por causa disso, 30% é por causa daquilo. Mas eu diria que uma parte significativa da frustração com o crescimento, que a gente está tendo hoje em relação ao início do ano, se deve de fato à piora do ambiente externo. Outra questão também é que o nível de incerteza não caiu como esperado. Ele ficou relativamente alto. Estou pensando no índice da FGV, que é um indicador bom para a gente ficar de olho. Ele cai depois da votação da reforma da Previdência, mas ele volta a subir de novo. Se você pega uma média móvel dele, ele não tem caído de forma consistente. Então, a gente ainda está operando num nível de incerteza muito alto.

BRP – E o que causa isso?

Volpon: Acho inegável que isso tem alguma coisa a ver com a natureza do governo Bolsonaro. Um governo polêmico e que cria polêmicas. Não só enfrenta polêmicas, como cria polêmicas. Um governo que não tem uma maioria estável no Congresso, por mind design, propositalmente. Tudo isso não levou a uma queda de incerteza, como era de se esperar, apesar de a reforma da Previdência ter sido aprovada. Mas há outra coisa que acho importante, e talvez tenha sido isso que a gente subestimou, em relação ao início do ano.

BRP – Qual coisa?

Volpon: É essa ideia que, na verdade, você está tendo uma transição de modelo econômico, deixando de ser um que era muito focado no Estado, direção de Estado, subsídio de Estado. Desde 2007, 2008, você teve um modelo muito voltado para o Estado. O Estado faliu. A gente está em crise fiscal desde 2014. Então, todo aquele apoio que estava sendo dado foi retirado de uma maneira muito abrupta. Você pode ver isso seja pela queda da carteira do BNDES, seja pela brutal queda dos investimentos públicos, porque o governo não consegue pagar seus gastos obrigatórios, a despeito da aprovação da reforma da Previdência. Até porque ela só vai gerar poupança lá na frente. Quando você olha para o lado da economia privada, essa queda de gastos discricionários e de investimentos é muito importante. A gente está transicionando de um modelo mais focado no Estado para um mais focado no mercado. E há sinais positivos nessa transição. Por exemplo, está saindo muito dinheiro da renda fixa indo para bolsa, para debêntures, para fundos imobiliários. A grande queda de juros, que tem sido uma das consequências positivas dessa falta de dinamismo econômico, está levando a essa transição de capital. A gente está vendo a morte do rentismo no Brasil. E aplicações indo para fins mais produtivos.

BRP – Essa transição de modelo pode acontecer rapidamente?

Volpon: Essa transição não é imediata nem automática. Ela demora. Acho que a economia brasileira está numa espécie de travessia pelo deserto. Não chegou ainda na terra prometida de um modelo muito mais baseado em financiamento do mercado. Está nesse meio termo, enfrentando também um ambiente externo bastante hostil. Para mim, isso explica essa frustração. Agora, positivamente, para não deixar uma mensagem muito pessimista, essa transição está ocorrendo. A gente não está atolado. Apesar de o crescimento estar atolado em 1%, a transição não está atolada.

BRP – Como assim?

Volpon: A consistência e qualidade desse crescimento que a gente está tendo hoje, apesar de ser baixo, é muito melhor do que vinha tendo. No passado, a gente estava com um crescimento maior, mas de péssima qualidade e insustentável. Por trás daquele crescimento, você tinha uma bolha fiscal insustentável. Que acabou estourando. Em alguns casos, parece que você está indo muito bem, mas você  está indo bem mesmo? Ou é uma bolha? Então, nesse caso, a gente está tendo uma economia que está crescendo 1%, mas de maneira mais consistente e mais sustentável. Isso é bom. E o grande driver disso é a queda de juros. E essa queda de juros pode continuar. O Banco Central, a despeito dessa desvalorização do real e da situação externa, deve ainda ter espaço, a meu ver, para continuar a cair os juros.

BRP – Se a transição de modelo demorar ou não funcionar, o País volta ao sistema anterior?

Volpon: Não existe a opção de a gente voltar ao modelo anterior. O modelo anterior morreu, ele bateu numa crise fiscal. Tipo, você se divorcia da sua esposa para ficar com outra pessoa. Mas aí pensa: não estou gostando muito. Acho que vou voltar para a minha esposa. Não têm essa opção. Não tem como voltar. Simplesmente, tem de seguir para frente. Agora, se a gente está transicionando para um modelo de mercado, é importante que a gente faça reformas para tornar aquele modelo o melhor possível. É aquele coisa, se a gente quer um modelo de mercado mas a gente joga em cima dele uma estrutura tributária irracional, uma estrutura regulatória irracional, todos os tipos de impedimentos para um ambiente de negócios, a gente até pode transicionar para um modelo de mercado. Mas ele nos vai entregar um crescimento muito baixo. Totalmente amarrado. Então, todas as reformas que estão sendo discutidas, têm de continuar.

BRP – A crise fiscal está superada?

Volpon: Não acabou. A crise fiscal continua. A reforma da Previdência era uma condição necessária, mas não o suficiente para resolver a crise fiscal. Essa é a razão pela qual a gente está vendo todo esse movimento ao redor das regras fiscais. Aí, o grande desafio é: vamos mudar a regra fiscal? Vamos, porque não tem escolha. É outra coisa que não tem jeito. As três regras fiscais, primário, teto de gastos e regra de ouro, conjuntamente como estão escritas, não funcionam. Agora, vamos mudar elas simplesmente afrouxando tudo ou vamos criar novos mecanismos de contenção de gastos? Acho que essa é a discussão que a gente tem de ter e ainda não sabemos o resultado final. Vamos esperar para ver aonde essa discussão vai nos levar.

BRP – É possível esperar algum crescimento da economia para esse ano?

Volpon: Eu baixei a minha previsão de crescimento, muito mais em função dessa percepção que essa transição é demorada mesmo. Não tem muito o que fazer. E ela é mais demorada no sentido em que você tem um ambiente hostil internacional. Porque esse ambiente hostil tira dinheiro do Brasil e você já vê isso na Bolsa. Então, tira dinheiro da gente e também cria esse ambiente de incerteza e risco que é ruim, a despeito da queda de juros.

BRP – Qual é a sua previsão para o PIB?

Volpon: 0,8% este ano e 1,5% para o ano que vem. A gente chegou a ter previsão de 3% para 2019 no final do ano passado.

BRP – O BC tem feito uma ação forte para segurar a cotação do dólar. Qual é a sua avaliação?

Volpon: Acho que eles estão tentando fazer duas coisas. Primeiro, atenuar a queda do real para poder entregar o máximo possível do orçamento de corte de juros que eles estão planejando. E, número dois, mudando a forma de atuar no câmbio para ajudar o Paulo Guedes a controlar o crescimento da dívida bruta. Tem todo aquele papo de usar mais as reservas para baixar a pressão na dívida bruta que está vindo do deficit primário, que está difícil de controlar.

BRP – A proposta de Orçamento para 2020 traz a previsão de apenas R$ 19 bilhões para investimentos. É a menor em uma década…

Volpon: Apesar de você já ter tido muito contingenciamento neste ano, o que acendeu a luz em Brasília, finalmente, para começar a articulação dessa mudança das regras fiscais, foi o anúncio do Orçamento de 2020. O pessoal falou: realmente, não tem dinheiro para nada. É aquela coisa. Você acha que está ruim agora, mas pode piorar. Já está ruim agora e eles olharam para o Orçamento de 2020, que tem de ser feito dentro das regras fiscais vigentes. Não é para ficar culpando Paulo Guedes, Mansueto. Tem um conjunto de regras. E, inclusive, se eles não atenderem essas regras, isso é crime de responsabilidade fiscal. Dá impeachment. Não é brincadeira isso. Eles constroem um Orçamento dentro dessas regras e aí não tem dinheiro para nada. Nem para investimentos, nem para gastos discricionários. Você vai visitar os ministérios hoje e não tem cafezinho. E isso em 2020 só piora. Mas essas regras são o que elas são e o Orçamento precisa ser feito baseado nelas. De novo, acho que isso acendeu a luz para perceber que alguma coisa precisa ser feita. Nunca achei o teto de gastos alguma coisa que conseguiria sobreviver. Ele é muito rígido. Sempre achei que, depois da aprovação da reforma da Previdência, haveria uma flexibilização do teto. E essa discussão está acontecendo. Então, esse estado de penúria que a gente está vendo para o Orçamento de 2020 não acho que será o estado verdadeiro. Deve haver alguma mudança para aliviar a situação para o ano que vem. O que eles querem conjugar com isso são gatilhos para diminuir despesas obrigatórias. Não está claro como eles querem fazer isso. Eles estão pensando em pegar uma PEC que já estava na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que tratava da regra de ouro, e querem modificar para colocar essas mudanças. Mas aí vem a questão política. Obviamente, o funcionalismo vai brigar contra isso com unhas e dentes. Então, esse apagão está vindo, mas já existe esse movimento para mudar alguma coisa para ele não acontecer.

BRP – Acabar com o teto de gastos é um caminho sem volta?

Volpon. Eu acho que sim. Agora, o problema é como. Essa discussão ainda está muito no início. Vamos tirar investimentos do teto. O pessoal mais hard line acha que não deve. O PT fez isso. Ele começou a tirar um monte de coisas da meta primária. Vamos tirar os investimentos da meta primária. Mas aí começaram a chamar qualquer despesa de investimento. Não existe investimento em educação. Existe gasto em educação. Só existe investimento se no final da despesa existe um ativo que é seu. Faço uma ponte, a ponte é do Estado, isso é investimento. Agora, eu gasto dinheiro em escola. Você pode chamar isso de investimento em capital humano, mas esse capital humano é da pessoa. Isso, que é bastante óbvio, não foi seguido pelo PT. Então, existe esse medo de que, se você começar a ir nessa linha, vai dar aquela bagunça como deu no governo do PT.

BRP – O que pode ser feito a curto prazo para melhorar a economia?

Volpon. Fora deixar o Banco Central cair os juros, que já está na conta mas ainda não aconteceu, não tem muito de imediato que o governo possa fazer porque ele está amarrado nessas regras fiscais. É difícil você dizer que vai gastar muito dinheiro sem quebrar uma regra fiscal. Por isso, eles olharam para a questão do FGTS. Porque lá está um dinheiro parado. Mas aí todo governo que olha para isso bate no mesmo problema. Se você tirar mais dinheiro do FGTS, sobra menos dinheiro para a construção civil. Também tem muito dinheiro parado em determinados fundos. Outra coisa que pode aliviar a situação é o leilão da cessão onerosa, só que isso está amarrado à questão dos Estados. Há um lobby enorme dos Estados, porque estão todos em crise fiscal, para terem uma grande parte do dinheiro. O governo está disposto a negociar isso desde que haja um certo direcionamento desses recursos. Porque do contrário vão gastar esse dinheiro e daqui a seis meses vão estar de novo passando o chapéu para o governo. Então, tem coisas que estão em curso, que poderiam aliviar a situação.

BRP – A reforma tributária pode ajudar?

Volpon: Para se falar em termos de incertezas e confiança, ajuda saber que a gente vai ter uma reforma tributária e qual o modelo dessa reforma. E não está ajudando ter três reformas, sendo que o governo, até hoje, não apresentou a sua. Rodrigo Maia já cobrou o governo: ‘cadê a reforma de vocês’. Ficam falando, falando e falando e não apresentam nada. Aí falam de CPMF com outro nome. Aí o Bolsonaro fala que não quer, mas tudo o que sai da equipe econômica fala que vai ter. Isso é ruim. E essa questão da reforma tributária precisa ter um pouquinho de cuidado. Porque se você tem uma coisa muito bagunçada, o empresariado pode não investir porque não sabe qual sistema tributário vai ter. Você tem de saber qual imposto você vai pagar para ter uma ideia de qual será o retorno do seu investimento. Coisa básica. Mas aí você vê que vai ter uma mega mudança tributária e eu não sei o que vai sair disso…CPMF, por exemplo, é um imposto cumulativo, é um imposto ineficiente. Vai voltar a CPMF? Se você tem uma cadeia de produção mais longa, isso vai danificar mais do que um que tenha uma cadeia mais curta.