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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Volpon: ‘Brasil não é mais aquele carro atolado. Já está andando’

Marcelo de Moraes

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Economista-chefe do banco UBS no Brasil, Tony Volpon faz previsão otimista para o crescimento do País em 2020. Para ele, é realista prever um aumento do PIB em 2,5% este ano e um câmbio com o dólar cotado a R$ 3,95. Em entrevista ao BRPolítico, Volpon, que foi diretor do Banco Central, reconhece que não se concretizaram as apostas positivas feitas pelo mercado para 2019, mas ressalta que as condições atuais são diferentes do ano passado e permitem uma expectativa positiva bem mais realista.

Foto: Amanda Perobelli/Estadão

“De uma certa maneira, a diferença entre as pessoas que estão prevendo um bom ano de 2020 para as pessoas que estavam prevendo um bom ano de 2019, era que, naquele momento, era uma previsão feita sem ter uma melhora concreta na economia. Essa melhora, agora, já aconteceu. Depois dos dados do terceiro trimestre, já teve uma melhora bastante razoável. No perfil do crescimento, no nível dos investimentos”, afirma Volpon. “Não é aquele carro que está atolado, parado, que para começar a andar você precisa dar uma mega pancada. Esse carro já está andando e a gente vai injetar mais gasolina monetária no seu motor ao longo do ano”, aposta.

Volpon, no entanto, chama a atenção para a expectativa do mercado em relação à aprovação de mais reformas, como a tributária e a administrativa. E destaca que um sinal muito importante será aprovar alguma das medidas que garanta o controle dos gastos públicos.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BRPolítico – O mercado aposta num crescimento relevante da economia brasileira para este ano. Mas isso já aconteceu em 2019 e o crescimento do PIB deverá ser igual ao dos anos anteriores, em torno de 1%. O que aconteceu?

VOLPON – “Eu comecei o ano passado com uma previsão bastante otimista, que se mostrou errada. Acho que, no ano passado, o que a gente estava olhando, o que estava motivando esse otimismo, era que você tinha obtido uma grande melhora nas condições financeiras logo depois da eleição. O mercado tinha ficado bastante pressionado nos juros, câmbio, Bolsa, etc, durante a eleição, porque existia o risco de acontecer a vitória do PT e o mercado não gostaria desse resultado. Não teve a vitória do PT e aconteceu uma grande melhora nas condições financeiras. Em função disso e por uma previsão positiva sobre o andamento das reformas, gerou aquele tipo de expectativa”.

BRP – O que frustrou esse otimismo com o cenário político gerado pela vitória de Jair Bolsonaro e derrota do PT?

VOLPON – “Então, essa expectativa era muito calcada no que estava apontando como sendo o futuro provável pelo mercado financeiro. Perceba que é uma coisa que se auto-alimenta. Isso acabou sendo frustrado por duas razões. Primeiro, porque o início político do governo Bolsonaro foi muito mais tumultuado do que as pessoas estavam esperando. Aí, cabe uma crítica ao mercado financeiro, que não estava entendendo muito bem e vocês da parte jornalística e política estavam entendendo muito mais que tinha sido eleito um governo meio bagunçado mesmo. Acho que o mercado não incorporou isso nas suas análises da maneira devida. Então, começou a ter aquelas brigas nos ministérios, com o Rodrigo Maia, coisas assim. Tudo aquilo assustou muito o mercado, que não estava vendo isso como algo do tipo, ah, é isso mesmo. O mercado estava vendo uma coisa muito mais pacífica, que acabou não acontecendo. Isso acabou levando a uma piora das condições financeiras”.

BRP – A ansiedade pela aprovação da reforma da Previdência também incomodou o mercado…

VOLPON – “E também acabou atrasando a entrega da reforma da Previdência. Era também um otimismo exagerado que a reforma poderia estar feita no primeiro semestre. Acabou não acontecendo, demorou muito mais. Acabou sendo uma boa reforma, mas demorou mais. Então, quando você olha o perfil do crescimento econômico, não é que ele não veio. Ele foi retardado mais para o final do ano passado”.

BRP – O mercado prevê, novamente, que o crescimento será relevante. Dessa vez vai?

VOLPON – “De uma certa maneira, a diferença entre as pessoas que estão prevendo um bom ano de 2020 para as pessoas que estavam prevendo um bom ano de 2019, era que, naquele momento, era um previsão feita sem ter uma melhora concreta na economia. Essa melhora, agora, já aconteceu. Depois dos dados do terceiro trimestre, já teve uma melhora bastante razoável. No perfil do crescimento, no nível dos investimentos. Enquanto é verdade que a gente ainda não está rodando a economia a 2%, 2,5% do PIB, que é a faixa de previsões para este ano, a gente não está também atolado em 1%, como ficou durante os últimos três anos. A gente está em algum lugar no meio. Até se você tivesse um choque muito negativo, como, por exemplo, se tivesse se agravado essa história do Irã, se a economia brasileira ficasse nesse mesmo patamar de crescimento de 1%, onde ela já está hoje, já fecharia 2020 com uma patamar melhor do que foi 2019. Então, a economia já se mexeu. Não é mais uma previsão de que vai mexer”.

BRP – O senhor disse que, em 2019, o resultado eleitoral gerou um clima positivo. Agora, o que tem contribuído mais para a repetição desse otimismo?

VOLPON – “Grande parte da questão do otimismo tem a ver com os juros. O Banco Central esperou pela aprovação da reforma da Previdência, o que, a meu ver, foi a decisão correta. Mais conservadora, mas correta. E a gente sabe que esse impacto da queda dos juros ainda não bateu totalmente na economia. Então, outra coisa que motiva um certo otimismo é que se sabe que ainda tem um impulso da “política econômica”, como, aconteceu, por exemplo, com a questão da liberação do FGTS, que foi importante. Então, você ainda tem alguma coisa de “política monetária” chegando ao longo do ano, numa economia que já reagiu. Você está dando mais força para um carro que já está andando. Não é aquele carro que está atolado, parado, que para começar a andar você precisa dar uma mega pancada. Esse carro já está andando e a gente vai injetar mais gasolina monetária no seu motor ao longo do ano. Acho que o otimismo está mais calçado nesses fatores. Esse carro já está andando. Você só está discutindo se esse carro vai andar a 60 kms ou a 80 kms por hora”.

BRP – O cenário internacional começou o ano com enorme tensão no Oriente Médio por causa do conflito entre Estados Unidos e Irã. Qual o impacto que isso poderá ter sobre a economia do Brasil?

VOLPON – “Acho que as pessoas têm zero capacidade de prever o andamento desse tipo de situação e como isso vai pesar no final do ano como um evento notável. Porque tem todo o tipo de hipótese, desde algum tipo de guerra, que seria extremamente negativo, até não haver nada pela enorme assimetria entre o poderio militar dos dois países. Pode haver, obviamente, uma questão localizada no preço do petróleo. Mas quando você olha para os dois lados, não vê incentivo racional para um conflito. No caso do Trump, por razões eleitorais. Até porque muito da retórica dele é que está retirando os Estados Unidos dessas guerras infinitas em que entrou desde o início do milênio. E do lado do Irã, se houver uma guerra mesmo, eles não têm o poderio americano. Então, acho que isso delimita, num primeiro momento, o impacto dessa tensão”.

BRP – Mas essas turbulências sempre provocam ruído na economia brasileira…

VOLPON – “Isso a gente vai ter de lidar. Já tinha sofrido aquele impacto, naquele mini surto inflacionário provocado pela questão do aumento da carne. Agora, pode ter um outro impacto em função do preço do petróleo, que pode ser limitado ou não, mas acho que vai ter algum tipo de impacto. Talvez uma consequência disso é que se reforce a ideia de que o Banco Central não vai cortar os juros mais. Ou seja, não se teria uma espécie de saideira, que parte do mercado acha que ainda pode haver, de reduzir 0,25 ponto ou até 0,50. E tem outra parte do mercado, na qual eu me incluo, que acha que o BC não vai baixar mais nada, 4,5% está bom. Vamos ficar por aí”.

BRP – O risco de o crescimento ser voo de galinha está afastado?

VOLPON – Olha, afastado um risco de alguma crise como essa do Irã, a economia dá para ficar rodando a uns 2% e alguma coisa por alguns anos. Estamos numa economia que ainda sofre com os efeitos da recessão do ponto de vista de capacidade ociosa. Há certos setores onde isso é muito mais óbvio, tipo Construção Civil. Você andando por São Paulo é fácil perceber a quantidade de prédios sendo levantados. A gente sabe que a Construção Civil é importante porque é muito intensiva a mão de obra. E é mão de obra formalizada, que movimenta bastante a economia. De novo, é aquilo que eu estava dizendo. Isso já está acontecendo. Não é uma previsão, do tipo, ah, se melhorar, a gente vai ter mais construção. Não. Já está acontecendo. Só no meu bairro tem uns sete prédios levantando. A gente poderia até estar discutindo se não está vivendo uma pequena bolha, pelo menos na cidade de São Paulo. São sinais que apontam para um crescimento maior”.

BRP – Ano eleitoral atrapalha a votação das reformas? O calendário eleitoral preocupa?

VOLPON – “Preocupa, lógico. Na verdade, um cenário mais negativo, para não ficar apenas no otimismo, seria pegar, por exemplo, as projeções do Instituto Fiscal Independente (IFI), que tem um trabalho bastante competente. Eles dizem que se você não aprovar nada em termos de alguma medida estrutural para frear o crescimento do gasto obrigatório é muito provável que estoure o teto em 2020, 2021. Dá para você, mais ou menos, conseguir empurrar esse ano, mas não conseguiria fazer isso em 2021”.

BRP – Existem propostas tramitando no Congresso sobre isso…

VOLPON – “O mercado, realmente, gostaria de ver isso aprovado, dentro do conjunto de coisas que foram apresentadas pelo governo e que já estão sendo gestionadas pelo próprio Congresso. Se há alguma prioridade sobre o que deve ser aprovado, minimamente, para garantir vida tranquila para os próximos anos e, portanto, dar uma ancoragem a esse baixo nível de juros, que é o motor desse crescimento econômico, é aprovar algum tipo de controle de gastos. Ou aprovar a PEC da Regra de Ouro, do deputado Pedro Paulo (DEM-RJ), ou a PEC da Emergência Fiscal do Paulo Guedes. Todas elas fazem mais ou menos a mesma coisa. Precisa sair daí alguma coisa que garanta essa freada sobre o crescimento do gasto obrigatório para você não furar o teto até o próximo governo. Até 2023, basicamente. E para o mercado financeiro se você joga alguma coisa três anos para frente, isso e para sempre equivalem à mesma coisa. Claro que fazer uma ampla reforma do funcionalismo seria o ideal. Mas ninguém acha que isso seria viável, especialmente em ano eleitoral”.

BRP – Como o senhor avalia o processo de privatizações?

VOLPON – “Essa foi uma coisa que ficou faltando no ano passado. Tem algumas coisas coligadas. Uma é essa venda de participações, como a do BNDES. Acho que isso vai para frente, já tem várias operações rodando. É positivo. Mercado está gostando disso. Gera receita para as estatais. Você tem também a questão das concessões, que também ficou devendo. Tudo indica que haverá uma aceleração nessa agenda este ano, o que também é bastante positivo, porque quem ganha as concessões precisa fazer investimentos e isso também movimenta a economia”.

BRP – Qual é a sua previsão de crescimento do PIB para 2020?

VOLPON – “Algo em torno de 2,5% do PIB. Previsão de câmbio do dólar de R$ 3,95. É um câmbio que conversa com um crescimento maior. Se olhar o histórico do Brasil, quando você tem um crescimento maior, o câmbio fica mais forte”.