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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Wagner, a trilha sonora do nazismo

Gustavo Zucchi

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O secretário de Cultura, Roberto Alvim, está alegando que seu discurso com cheiro de nazismo não passa de uma “coincidência”. Só que essa desculpa será difícil de engolir. São muitas as “coincidências” que ligam diretamente a intenção de Alvim com o regime alemão.  E não apenas por citar praticamente ipisis litteris discurso do ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels. Até mesmo a escolha de trilha sonora encaixou de forma praticamente perfeita na estética da peça e nas ideias expostas por Alvim. Richard Wagner, o autor selecionado pelo secretário, foi também amplamente utilizado pela ditadura alemã em suas peças de propaganda.

Para quem não conhece, toca ao fundo do discurso de Alvim o prelúdio do ato I de Lohengrin, ópera do compositor alemão lançada em 1850 e que conta uma história do ciclo artuniano (do rei Arthur e dos cavaleiros da Távola Redonda). Wagner em boa parte de sua obra trata de mitos. Em especial de “mitos fundantes” alemães e de outros povos europeus. Tema citado pelo secretário de Cultura brasileiro como um dos focos de seu trabalho no governo de Jair Bolsonaro. E que também conquistou Hitler.

Lohengrin em especial é uma das obras favoritas do ditador. É citada em “Mein Kampf” (“Minha Luta”, o livro escrito pelo genocida) como responsável por “mudar a vida” de Hitler aos 12 anos. “Em um instante eu fiquei viciado”, escreveu o ditador. A última ópera executada pelos nazistas em Berlim antes da queda do regime foi justamente a tetralogia O Anel do Nibelungo, obra-prima do compositor.

Wagner, por sua vez, apesar de ser anterior à ascensão do nazismo, era um conservador nacionalista com ideias que podem ser consideradas antissemitas. Em seu bicentenário, a emissora britânica BBC chegou a perguntar se “é possível ouvir Wagner de consciência limpa”. O alemão foi o autor de um panfleto intitulado “O judaísmo e a música” no qual afirmava que o judeu é “incapaz de se expressar artisticamente”. Morreu em 1883, mas seus descendentes se associaram de forma explicita com Hitler. Como mostra o jornal alemão Deutsche Welle (DW), Houston Stewart Chamberlain, genro, e Winifred Wagner, nora do compositor, chegaram a saudar o nazista como o “novo Parsifal”, cavaleiro artuniano responsável pelo Santo Graal e pai de Lohengrin na mitologia.

Temos então no vídeo do secretário um cópia de trecho do discurso de um nazista, com o brasileiro pedindo a valorização de “mitos fundantes” em uma espécie de batalha “contra o mal”. E de quebra toca ao fundo o compositor que não apenas foi o favorito de Hitler, como cuja obra endossa ideias antissemitas e de uma origem mitológica dos povos europeus. Ou seja, Alvim fez “barba, cabelo e bigode” na lista de “coincidências” com o nazismo.