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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Sou da Paz contesta versão de Witzel sobre armas

Equipe BR Político

Depois de culpar o tráfico de drogas e usuários recreativos pela morte da menina Ágatha, de apenas 8 anos, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), disse que pretende pedir à ONU o fechamento das fronteiras brasileiras com Bolívia, Colômbia e Paraguai. Segundo o governador, as armas utilizadas no Rio de Janeiro têm origem nesses países, e o fechamento das fronteiras seria uma forma de reduzir a entrada, via contrabando, desses equipamentos no Brasil. Dados do Instituto Sou da Paz, no entanto, vão na contramão da fala de Witzel.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Foto: Wilton Júnior/Estadão

“Em relação à nacionalidade, temos que 57% das armas apreendidas no Estado foram fabricadas no Brasil. O segundo país com maior número de armas apreendidas com o crime são os Estados Unidos, com 5%”, diz o estudo mais recente do instituto sobre a apreensão de armas de fogo no Rio de Janeiro. A fonte dos dados para a pesquisa foi o Instituto de Segurança Pública, que é vinculado à Secretaria de Segurança do Estado.

O levantamento foi feito em 2014, mas, segundo Natalia Pollachi, coordenadora de projetos da organização, a tendência é que esse padrão não tenha sido alterado. Ela afirma que as marcas nacionais são predominantes, sobretudo, em revólveres e pistolas. Esses dois tipos de equipamento representaram grande parte das apreensões no Rio de Janeiro em 2014: do total de armas retidas no Estado, 46,6% eram revólveres e 35,9% eram pistolas. A presença das estrangeiras estaria concentrada, sobretudo, em subcategorias como fuzis e metralhadoras.

“Essa declaração (do governador Wilson Witzel) tem uma série de problemas: primeiro, ela terceiriza um problema (de segurança pública). Os dados indicam que temos uma grande quantidade de armas nacionais circulando, e que são de responsabilidade do governo federal”, diz Pollachi.

A coordenadora também questiona o argumento da “exportação boomerang” – segundo o qual, as armas brasileiras são exportadas, mas voltam para o País sob a forma de contrabando. “Toda exportação de arma de fogo é autorizada pelo Exército. (Arma) Não é exportada como um produto comum”, diz. “Sim, o controle de fronteiras é importante. Sim, existe contrabando, mas não é maioria. O importante é não eximir as autoridades brasileiras de responsabilidade”.